Essa é uma das dúvidas mais comuns — e mais bonitas — de quem escreve: é melhor começar com um tema claro, quase como um eixo, ou sentar e deixar o texto acontecer, sem mapa, sem destino? A resposta, como quase tudo na literatura, não é “um ou outro”. É entender o que cada modo de escrita acende em você e aprender a reconhecer quando um texto está pedindo direção ou liberdade.
O que muita gente chama de “deixar fluir” não é falta de técnica. É um método de escuta. E o que muita gente chama de “escrever com tema” não é engessamento. É uma forma de sustentar o texto para ele ir mais fundo. No fim, os dois caminhos podem levar ao mesmo lugar: a criação de uma voz que se reconhece.

Tema definido não é prisão: é uma lente
Escrever com tema definido pode ser uma forma poderosa de dar consistência ao trabalho. Quando você escolhe um eixo — memória, território, maternidade, corpo, luto, desejo, fé, periferia, trabalho, infância, linguagem — o texto ganha uma espécie de lente: você começa a enxergar o mundo por aquele recorte, e isso pode gerar profundidade.
Tema também ajuda a organizar uma produção maior. Em poesia e prosa poética, por exemplo, é comum que a pessoa escreva muitos textos soltos ao longo do tempo. Um tema pode funcionar como um fio que costura um livro, uma plaquete, uma série. Ele não precisa ser declarativo. Às vezes, o tema é uma obsessão silenciosa — e a revisão só vai perceber depois.
Mas há um ponto importante: tema não é “assunto”. Tema é campo. Assunto é tópico. Um texto pode falar sobre “uma rua”, mas ter como tema “perda”. Pode falar sobre “uma mãe”, mas ter como tema “transmissão”. Pode falar sobre “um corpo”, mas ter como tema “sobrevivência”. Quando a pessoa confunde tema com assunto, corre o risco de escrever de forma didática demais, como se precisasse explicar o que está fazendo. E literatura, muitas vezes, não explica: ela encarna.
Deixar fluir não é bagunça: é acesso ao inconsciente
Já a escrita sem tema definido — a escrita que vem como impulso — costuma ser o caminho mais direto para acessar a voz verdadeira, o timbre, as imagens que só você tem. Quando você escreve sem compromisso com um eixo, o texto pode surpreender até a autora. E isso é precioso.
Deixar fluir é uma forma de driblar autocensura, expectativa, “a obrigação de fazer algo bom”. É quando a frase vem torta e você não corrige na hora; quando a imagem aparece e você não tenta racionalizar; quando a linguagem encontra seu próprio ritmo. Muitas obras nascem assim: primeiro como matéria bruta, depois como corpo que será lapidado.
O risco, aqui, não é a liberdade — é a dispersão. Sem algum tipo de retorno (releitura, revisão, recorte), o fluxo pode virar acumulação. A escrita cresce, mas não vira projeto. E isso frustra muita gente: a pessoa escreve muito, mas sente que não “chega” em lugar nenhum. Nesses casos, o tema entra depois, como um gesto de organização, não como regra.
O segredo está no ciclo: fluir primeiro, entender depois
Uma forma muito saudável de conciliar os dois modos é pensar em ciclos. Há momentos de criação em que a melhor coisa é escrever sem controle, como quem abre uma comporta. E há momentos em que o texto precisa de direção, como quem escolhe caminho numa trilha.
Em muitos processos literários, o tema aparece como descoberta. Você escreve livremente por semanas ou meses, e um dia percebe: eu voltei nisso aqui de novo. Eu estou falando da mesma dor. Eu estou insistindo nessa mesma imagem. A partir daí, o tema deixa de ser uma obrigação e vira uma pista. Você não escolheu o tema — o tema escolheu você.
E quando você escolhe um tema desde o início, o fluxo não precisa ser bloqueado. Você pode escrever “para dentro do tema” com liberdade, permitindo desvios, contradições, mudança de forma. Um tema bem usado não dá respostas; ele abre variações.
Como saber o que seu texto precisa agora?
Se você sente que está travada, com medo do julgamento, com excesso de autocobrança, provavelmente precisa fluir. Se você sente que está escrevendo muito, mas tudo parece solto, repetitivo ou sem costura, talvez precise de um tema como fio.
Um bom sinal de que o tema está ajudando é quando ele dá profundidade sem apagar sua voz. Um bom sinal de que o fluxo está funcionando é quando você escreve e sente que algo vivo aconteceu — mesmo que ainda esteja bruto.
O que a Toma Aí Um Poema acredita
Na Toma Aí Um Poema, a gente acredita que escrever é um trabalho, sim — mas também é um gesto de escuta. Tema pode ser ferramenta de estrutura. Fluxo pode ser ferramenta de verdade. Não existe método superior. Existe método que combina com a sua vida, sua linguagem, seu corpo e seu tempo.
Escrever com tema definido ou deixar fluir não precisa ser uma escolha definitiva. Pode ser uma alternância. Um diálogo. Um jeito de construir liberdade com sustentação.
E agora queremos te ouvir: você escreve melhor quando escolhe um tema antes, ou quando deixa o texto te levar? Já aconteceu de um tema aparecer depois, sem você planejar?