Sim — muitas editoras aceitam, especialmente no mercado independente e em editoras de poesia contemporânea. Mas existe um “depende” importante: depende do tipo de publicação que você fez na rede, do contrato (se houver), e do grau de exclusividade que a editora quer para lançar o livro.
Abaixo, um guia prático para você entender como as editoras costumam enxergar isso — e como se preparar para enviar seu original sem tropeçar em direitos, ineditismo e expectativas.

O que “publicado” significa para uma editora?
Na cabeça de muita gente, publicar é “ter ISBN e estar na livraria”. Para editoras, publicar também pode significar tornar público. Então um poema no Instagram pode ser considerado “já publicado” — mas isso não quer dizer “automaticamente recusado”.
O que muda é o peso dessa publicação anterior:
- Um ou alguns poemas soltos no feed: geralmente ok.
- Um livro inteiro postado, poemário completo, em sequência: pode virar problema para editoras que exigem ineditismo mais rígido.
- Texto publicado em revista, antologia, portal, jornal, edital, concurso: costuma pesar mais do que rede social (porque é “publicação editorial” formal).
- Texto com contrato de exclusividade (revista, plataforma, concurso): aí o risco é jurídico, não só “editorial”.
Por que algumas editoras preferem inéditos (mesmo quando aceitam rede social)
Quando a editora pede “inédito”, muitas vezes ela está tentando garantir:
- Impacto de lançamento
Se todo mundo já leu todos os poemas, o livro pode perder o “efeito novidade”. - Diferencial comercial
A editora quer ter algo “novo” para apresentar à imprensa, livrarias, feiras e curadores. - Segurança jurídica e de imagem
Se um texto já circulou muito, pode haver recortes fora de contexto, cópias sem crédito, ou conflito com publicações anteriores.
Quando a publicação em rede social costuma ser totalmente tranquila
Em geral, é bem aceito quando:
- Você publicou trechos (1–3 poemas, ou partes).
- Você publicou poemas em versão rascunho e o livro traz versões revisadas.
- Os poemas são postados como “experimentação”, e o livro é um projeto editorial fechado, com unidade, ordem e trabalho de edição.
- Você mantém os poemas no ar, mas deixa claro que eles fazem parte de um livro (algumas editoras não ligam; outras pedem ajustes — já falo disso).
Quando pode virar um “não” (ou exigir renegociação)
Alguns cenários que costumam gerar recusa ou pedido de mudança:
- O livro inteiro está online (carrosséis, threads, PDF aberto, blog com todo o conteúdo).
- Você assinou algo que dá a terceiros direito exclusivo de publicação (mesmo sem perceber).
- O poema viralizou e está replicado em muitos lugares — e a editora teme disputa de autoria, plágio, ou desgaste.
- Editora tem linha editorial com exigência de inédito integral (isso existe, principalmente em prêmios/selos específicos).
“Preciso apagar os poemas das redes para ser aceita?”
Não necessariamente — e apagar tudo, às vezes, nem é a melhor estratégia (você perde registro, alcance e histórico). O que funciona melhor é:
- Perguntar qual é a política da editora: “vocês aceitam poemas já publicados em redes? se sim, há limite de porcentagem?”
- Se a editora exigir ineditismo parcial, você pode:
- manter nas redes apenas trechos;
- arquivar alguns posts específicos;
- ou publicar depois do lançamento apenas 1 poema por semana, por exemplo.
Uma alternativa elegante é transformar a rede social em trilha de bastidores: processo, referências, leitura em vídeo, frases do projeto — e deixar os poemas completos para o livro.
Existe uma “porcentagem segura” de poemas já postados?
Não existe regra universal, mas uma prática comum (bem aceita em muitos lugares) é:
- até 20%–30% do livro já ter aparecido em redes, desde que o conjunto do livro traga novidade (ordem, edição, poemas inéditos, versão final).
Se você postou 80%–100% do material, o caminho é:
- escrever poemas inéditos para equilibrar,
- ou reorganizar e reescrever versões,
- ou trabalhar com editora que não exija ineditismo.
E se eu publiquei em “revista/antologia” e depois postei no Instagram?
Aí o que manda é o primeiro vínculo editorial. Muitas revistas e antologias pedem autorização para publicação e, em alguns casos, pedem exclusividade por um período (ou estabelecem condições de republicação). Não é regra, mas acontece.
Boa prática:
- guarde e-mails, termos, editais, prints do que você aceitou;
- e avise a editora no envio do original se houver poemas com histórico de publicação formal.
Como falar sobre isso ao enviar o original (sem se prejudicar)
No e-mail/submissão, você pode ser objetiva:
“Alguns poemas deste livro foram publicados anteriormente em redes sociais (Instagram), em posts avulsos. O conjunto do livro é inédito como projeto editorial (seleção, ordem e versões finais revisadas). Caso exista preferência por limitar poemas já divulgados, posso adequar.”
Isso transmite: transparência + profissionalismo + flexibilidade.
Dicas práticas para quem publica poesia nas redes e quer virar livro
- Não poste o livro inteiro antes de tentar editar/publicar (se esse for seu objetivo).
- Use redes como vitrine: trechos, 1 poema por vez, leituras, bastidores.
- Mantenha um arquivo com:
- data de criação,
- versões,
- onde foi publicado (links/prints),
- e se houve publicação formal.
- Se um poema viralizar muito, considere reservar o poema para o livro com:
- versão revisada
- e um contexto novo (prefácio, nota, série dentro do livro).
Resposta curta (para quem quer só o essencial)
Editoras aceitam, sim. O que pode complicar é quando você já disponibilizou o livro inteiro online ou quando há contrato/exclusividade com outra publicação. O melhor é ser transparente, indicar que foram posts avulsos e deixar claro que o livro é um projeto editado e final.