É normal não gostar de um poema depois de publicado?

Sim. É normal. E, se a gente for honesta, é até previsível.

O poema, enquanto está com você, vive num estado de promessa: ele pode melhorar, pode ganhar outra palavra, pode ser refeito, pode voltar a ser segredo. Depois de publicado, ele vira outra coisa — um objeto no mundo, com bordas definidas. E é aí que muita gente sente um desconforto: não necessariamente com o poema, mas com o fato de que ele agora não é mais só seu processo; é também memória, registro, rastro.

A sensação de “não gostei mais” costuma ter causas bem humanas — e quase nunca significa que o poema é ruim.

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Imagem de Antonios Ntoumas por Pixabay

1) O poema muda… ou você muda?

Às vezes, você relê e pensa: “eu faria diferente”. E faria mesmo. Porque a pessoa que escreveu já não é exatamente a pessoa que lê.

A escrita é um recorte de tempo. Publicar é congelar esse recorte. Só que a vida não congela junto. Você continua aprendendo, lendo outras coisas, descobrindo novos ritmos, se tornando mais exigente com sua linguagem. O poema fica ali, parado, segurando a versão de você que existia naquele dia.

Então, sim: é normal crescer e sentir que o poema “não acompanha” mais.


2) O pós-publicação derruba a adrenalina do processo

Antes de publicar, a gente costuma ficar numa mistura de urgência e encantamento: “isso está vivo, isso está funcionando, isso precisa existir”. Depois que sai, o corpo relaxa — e, com o relaxamento, vem o olhar frio.

É como ouvir a própria voz gravada. No momento de falar, você estava inteira na mensagem; ao ouvir depois, você se estranha. Com poema, acontece parecido: a publicação tira o calor do “agora” e coloca o texto sob luz branca.

Esse estranhamento é comum. E, em artistas experientes, é quase um sintoma de atenção crítica, não de fracasso.


3) O poema publicado perde a possibilidade de ser “só tentativa”

Existe uma liberdade enorme em escrever algo que ninguém viu. A gente pode errar, exagerar, ser cafona, ser grandiosa, ser frágil — sem que isso vire identidade pública.

Publicar, principalmente em redes sociais, tem um efeito colateral: a sensação de que o poema vira um “cartão de visita”, um retrato que não pode mais tremular. Aí você começa a ler como se fosse alguém de fora julgando, e a pergunta muda de “isso me representa?” para “isso é bom o suficiente para me representar?”.

E essa segunda pergunta costuma ser muito mais cruel.


4) Às vezes não é o poema que você não gosta — é o contexto

Tem poema que você ama no caderno e detesta no feed. Não porque ele piorou, mas porque o entorno mudou:

  • a legenda
  • a arte
  • os comentários
  • o dia em que você publicou
  • a pessoa que interpretou de um jeito torto
  • o algoritmo que empurrou o texto para um público que você não queria

O poema vira palco de coisas que ele não pediu. Isso mexe com a gente.

E tem também o inverso: poema que, no livro, ganha outro corpo — porque está bem editado, bem posicionado, respirando numa sequência. Contexto é moldura e, em poesia, moldura é sentido.


5) O “não gosto mais” pode ser um tipo de luto

Publicar é perder um pouco do controle. Você não escolhe quem lê, o que entende, como usa, o que recorta.

Para algumas pessoas, isso gera um luto real: o luto pela intimidade do texto, pelo segredo que agora virou coisa pública. Especialmente quando o poema nasceu de algo sensível — dor, amor, trauma, luto, desejo, vergonha, fé.

Às vezes você não quer mais tocar naquele lugar. E o poema é uma porta. Não gostar dele pode ser só um jeito do corpo dizer: “eu mudei de fase”.


6) Mas e quando o poema realmente está ruim?

Pode acontecer. É normal também.

Todo mundo escreve poemas que depois parecem frágeis, imaturos, apressados, repetitivos. O erro não é isso existir; o erro é você acreditar que um poema “ruim” anula sua escrita.

Poeta não é quem acerta sempre. Poeta é quem continua escrevendo — inclusive atravessando a vergonha.

A pergunta útil, aqui, não é “como apagar isso?” e sim:

  • O que eu aprendo com essa rejeição?
  • É técnica (ritmo, imagem, excesso)?
  • É estética (eu já não escrevo assim)?
  • É emocional (eu não quero mais essa memória)?
  • É pública (eu me senti exposta)?

Cada resposta aponta um caminho diferente.


7) O que fazer quando bate essa sensação (sem se sabotAR)

1) Espere um pouco antes de decidir apagar

O impulso de deletar costuma vir da ansiedade, não do critério. Dá um tempo. Volte depois.

2) Trate o poema como documento do seu processo

Você não precisa amar todas as suas fases. Você só precisa respeitar que elas existiram.

3) Reescreva — sem culpa

Publicar não é decretar “versão final eterna”. Muitos poetas revisam poemas ao longo da vida, reeditam em livros, mudam versos, reorganizam séries. O poema pode ter versões.

4) Se for rede social, use o recurso de arquivar

Nem tudo precisa ficar exposto para sempre. Arquivar é diferente de apagar. Arquivar é cuidar.

5) Edite o conjunto, não só o texto isolado

Às vezes o problema não é o poema, é o lugar em que ele está. Um poema pode ganhar sentido quando entra numa sequência, quando muda de seção, quando encontra silêncio.


8) Um jeito bonito de pensar: publicar é aceitar imperfeição

Publicar é dizer: “isso existiu, do jeito que deu, com as palavras que eu tinha”. E isso é humano. O poema não precisa ser perfeito para ser verdadeiro. Nem precisa te representar para sempre. Ele representou um instante.

E instantes passam.


Conclusão: é normal — e pode ser um sinal de maturidade

Não gostar de um poema depois de publicado pode ser:

  • crescimento estético,
  • autocrítica mais afiada,
  • mudança emocional,
  • cansaço de exposição,
  • ou só o efeito natural do tempo.

Em todos os casos, isso não invalida sua escrita. Pelo contrário: pode ser exatamente o que prova que você está viva dentro dela.

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