Precificar fala pública é uma das tarefas mais injustas do trabalho cultural: quem convida, quase sempre, quer “um valor”; quem é convidado, quase sempre, carrega anos de formação, pesquisa, prática, deslocamento, preparação, pós-produção e ainda a responsabilidade de sustentar um trabalho que não cabe num recibo improvisado. A boa notícia é que dá para transformar “quanto você cobra?” em uma proposta clara, profissional e justa — sem parecer ríspida, sem se diminuir e sem virar refém do orçamento do outro.
Abaixo, um guia prático para você precificar palestra, oficina e roda de conversa, com referências de composição do cachê, modelos de orçamento para escola/universidade e formas de contrapartida quando não há verba.

1) Antes de colocar um número: defina o que você está vendendo
Eventos diferentes exigem cargas de trabalho diferentes, mesmo quando duram o mesmo tempo.
Palestra
- Conteúdo autoral/curado, geralmente expositivo.
- Demanda: pesquisa + estrutura + materiais (slides/trechos/roteiro) + performance.
- Pode ter Q&A e mediação.
Roda de conversa
- Encontro com mediação, troca, escuta e condução de tempo.
- Demanda: alinhamento prévio + leitura de contexto (público, pauta) + presença e condução.
- Normalmente é menos “conteúdo fechado” e mais “habilidade de mediação”.
Oficina
- Entrega pedagógica: método, atividades, acompanhamento, dinâmica, materiais, avaliação.
- Demanda: planejamento detalhado + materiais + condução + pós (lista, retorno, certificado, relatório).
- Em geral, é o formato mais trabalhoso e, por isso, deve ser o mais caro por hora.
Regra simples: não precifique pelo tempo no palco — precifique pelo trabalho total.
2) O que entra num cachê justo (e quase ninguém calcula)
Um cachê justo paga não só “a hora do evento”, mas o pacote completo.
Checklist do que compõe seu valor
- Tempo de preparação (roteiro, seleção de referências, exercícios, ajustes para o público)
- Tempo de alinhamento (reuniões, e-mails, briefing, contrato)
- Tempo de execução (evento em si)
- Tempo de pós (envio de materiais, feedback, relatório, certificado, resposta a participantes)
- Deslocamento (ida/volta + tempo de trajeto)
- Custos (internet, impressão, materiais, softwares, equipamentos)
- Tributos e emissão (MEI, nota, recibo, imposto embutido)
- Direito de imagem/uso (gravação, reprodução, postagem, recortes)
Se o contratante quer gravar e usar depois (aula, recorte, conteúdo institucional), isso aumenta o valor. Você não está “fazendo uma fala”, está licenciando um conteúdo.
3) Três modelos de precificação que funcionam
Modelo A — Por pacote (o mais profissional)
Você cria um valor fechado por tipo de entrega e deixa claro o que inclui.
Exemplo de pacotes:
- Roda de conversa (60–90 min): inclui briefing + participação + 1 reunião curta de alinhamento.
- Palestra (60 min + Q&A): inclui briefing + estrutura + fala + Q&A.
- Oficina (2h / 3h / 4h): inclui plano de aula + materiais + condução + pós (lista + exercício).
Vantagem: o contratante entende que é um serviço completo, não “hora-avulsa”.
Modelo B — Base + adicionais (ótimo para escolas e universidades)
Você define um cachê base e soma itens conforme necessidades.
Adicionais comuns:
- gravação e licença de uso
- deslocamento
- material impresso
- turma extra
- personalização para tema específico
- entrega de relatório/atividade pós
- certificado
Vantagem: você consegue aceitar orçamentos menores ajustando escopo, sem desvalorizar o trabalho.
Modelo C — Faixa de valor (para responder rápido sem se comprometer)
Útil quando chegam no seu DM com “quanto você cobra?” sem informações.
Exemplo:
- “Roda de conversa: entre R$ X e R$ Y, dependendo de duração, público e necessidade de deslocamento.”
- “Oficina: entre R$ X e R$ Y, conforme carga horária e se inclui material/relatório.”
Vantagem: você ganha tempo para pedir briefing e formalizar.
4) Como chegar no número (sem fórmula mágica, mas com lógica)
Um jeito simples e honesto é calcular seu valor/hora real e multiplicar pelo trabalho total.
Passo 1 — Defina seu valor/hora mínimo
Pense em:
- quanto você precisa ganhar por mês
- quantos dias/horas você consegue vender de fato (nem todo dia é faturável)
- custos fixos
Exemplo (raciocínio): se você precisa de R$ 6.000/mês e consegue vender 60 horas de trabalho “pagas” no mês, seu valor/hora mínimo seria R$ 100/h (antes de impostos e imprevistos). A partir disso, você ajusta por complexidade, reputação, urgência e tamanho da instituição.
Passo 2 — Some as horas invisíveis
Uma oficina de 2h raramente é “2h”. Pode ser:
- 2h execução
- 3h preparação
- 1h alinhamento e logística
- 1h pós
Total: 7h.
Passo 3 — Aplique um fator de responsabilidade
- Evento grande, auditório, formação de professores, gravação: fator maior.
- Evento pequeno, sem gravação, sem pós: fator menor.
Isso ajuda você a não cobrar o mesmo por trabalhos que têm impactos e exigências muito diferentes.
5) Orçamento para escola e universidade: como apresentar (e ser aprovada)
Escola e universidade costumam precisar de: proposta formal + valor + justificativa + dados de execução.
Elementos que seu orçamento deve ter
- título da atividade
- objetivo e público-alvo
- formato (palestra / oficina / roda)
- duração total e carga horária
- número de participantes (estimado)
- o que está incluso
- necessidades técnicas (microfone, projetor, sala, cadeiras em círculo etc.)
- valor e forma de pagamento
- validade do orçamento (ex.: 15 dias)
- dados para emissão (MEI/nota/recibo)
- política de cancelamento/remarcação (importante!)
Dica prática: escolas e universidades entendem muito bem quando você escreve:
“Este valor inclui preparação, condução e materiais pedagógicos, além de alinhamento prévio com a coordenação.”
Isso traduz o cachê em linguagem institucional.
6) Contrapartidas quando não há verba (sem trabalhar de graça “no escuro”)
Nem todo convite tem orçamento. Mas “sem orçamento” não precisa significar “sem valor”.
Você pode negociar contrapartidas claras, especialmente quando há impacto social real ou quando é estratégico para você.
Contrapartidas que fazem sentido
- compra garantida de livros (com número mínimo)
- venda de livros no local com exclusividade e apoio
- ajuda de custo (transporte + alimentação)
- hospedagem (se for outra cidade)
- divulgação institucional (site, redes, imprensa, fotos profissionais)
- registro audiovisual entregue para você (não apenas para eles)
- certificado/declaração de participação (útil para currículo e editais)
- turma fechada para formação de equipe (paga) + roda aberta (contrapartida)
- doação de acervo para biblioteca (quando você define o valor e o formato)
Evite contrapartidas vagas
“Visibilidade” sem entrega definida costuma ser um buraco. Se for visibilidade, transforme em itens:
- quantos posts
- em quais canais
- com quais datas
- marcando como
- com fotos e crédito
7) A negociação que preserva seu valor (frases prontas que funcionam)
Quando pedem “um descontinho”
- “Consigo adequar o valor reduzindo escopo: por exemplo, manter a palestra e retirar materiais/pós. O cachê integral cobre toda a preparação.”
Quando dizem que é uma instituição pública/educacional
- “Tenho valores especiais para escolas e universidades, sim — e também trabalho com formatos de contrapartida quando não há verba. Me diz duração, público e se haverá gravação que eu envio a proposta.”
Quando querem gravar e usar depois
- “Perfeito. Nesse caso, além do cachê, existe a licença de uso do conteúdo gravado. Posso incluir isso no orçamento com um valor específico e prazo de uso.”
Quando pedem valor sem briefing
- “Te passo uma faixa para você ter referência, mas para fechar certinho preciso de: formato, duração, público estimado, cidade e se haverá gravação.”
8) O que pode (e deve) mudar o preço
Aumenta o valor:
- urgência (“para semana que vem”)
- demanda de personalização (tema específico, leitura de textos, construção com a equipe)
- gravação e uso posterior
- público grande/alta responsabilidade
- oficina com material, acompanhamento ou relatório
- deslocamento longo (tempo é custo)
Reduz o valor sem desvalorizar:
- atividade em série (3 encontros, 5 encontros)
- mesma instituição contratando mais de uma ação
- evento sem gravação, sem pós e com estrutura pronta
- parceria com compra de livros garantida
9) Mini-modelo de orçamento (texto-base)
Você pode adaptar e colar em e-mail/Google Docs:
Proposta de atividade — [título]
Formato: [palestra/oficina/roda]
Duração: [X]
Público-alvo: [X] (número estimado: [X])
Objetivo: [1–2 linhas]
Inclui: briefing e alinhamento prévio; preparação do conteúdo; condução da atividade; [materiais/relatório/certificados, se houver].
Necessidades técnicas: [microfone/projetor/sala em círculo].
Valor: R$ [X] (pagamento via [PIX/nota/recibo], conforme necessidade).
Deslocamento: [incluso / à parte / ajuda de custo].
Gravação e licença de uso: [permitido com licença adicional / não incluído].
Validade do orçamento: [X dias].
Política de cancelamento: [X].
10) Para fechar: precificar é também posicionamento
Você não está “colocando preço numa fala”. Você está afirmando o valor de uma trajetória, de uma prática e de uma entrega que mobiliza pessoas e conhecimento. Cachê justo não é luxo: é sustentação do trabalho cultural.