Definir o preço de um livro de poesia independente é uma das decisões mais difíceis do processo editorial. Não porque faltem números, mas porque sobram camadas: custo, valor simbólico, acesso, sustentabilidade, justiça com quem escreve e com quem publica. A pergunta raramente é apenas “quanto cobrar?”, mas como precificar sem desvalorizar o trabalho — e sem inviabilizar o livro.
Antes de qualquer cálculo, é importante encarar uma verdade pouco dita: livro de poesia não é produto industrial. Ele carrega tempo, pesquisa, sensibilidade, trabalho gráfico, edição, revisão, impressão, logística e mediação cultural. Mesmo quando feito de forma independente, ele não nasce do improviso — nasce de uma cadeia de trabalho que precisa ser reconhecida.

Preço não é só custo, é posicionamento
O primeiro impulso costuma ser calcular o valor de impressão e multiplicar por dois. Embora isso seja um ponto de partida comum, ele raramente dá conta da realidade. Um livro não custa apenas papel e gráfica. Ele envolve horas de trabalho intelectual e técnico que, historicamente, são invisibilizadas no mercado editorial — especialmente quando falamos de poesia.
Definir o preço de um livro independente é também definir como esse livro quer existir no mundo. Um valor muito baixo pode facilitar o acesso imediato, mas também reforçar a ideia de que poesia vale pouco. Um valor muito alto pode afastar leitores e restringir a circulação. O equilíbrio não está no meio exato, mas na coerência.
Sustentabilidade não é ganância
Existe um tabu em falar de dinheiro na literatura, como se cobrar de forma justa fosse sinônimo de mercantilização. Não é. Sustentabilidade é o que permite que livros continuem existindo, que editoras independentes sigam abertas e que autoras não precisem abandonar a escrita para sobreviver.
Um livro de poesia independente precisa, no mínimo, pagar a si mesmo. Idealmente, precisa também gerar algum retorno para reinvestimento: novos projetos, reimpressões, circulação, feiras, envio de exemplares. Quando o preço não cobre esses ciclos, o prejuízo se acumula — quase sempre sobre quem já está em posição mais vulnerável.
Conhecer seu público é essencial
Preço não se define no vazio. Quem você espera que leia esse livro? Onde ele será vendido? Em feiras, escolas, eventos, vendas diretas, site, redes sociais? Um livro pensado para circulação comunitária pode adotar estratégias diferentes de um livro voltado para livrarias especializadas ou público acadêmico.
Não existe um preço universal para livros de poesia independentes. Existe um preço possível para cada contexto. E isso não diminui o valor da obra — pelo contrário, demonstra consciência do território em que ela circula.
Transparência também educa leitores
Quando autoras e editoras explicam como um livro é produzido e por que ele custa o que custa, algo importante acontece: o leitor entende que não está pagando apenas pelo objeto, mas por todo um processo. A poesia deixa de ser vista como algo “barato” ou “amador” e passa a ser reconhecida como trabalho.
Essa transparência não precisa ser técnica nem exaustiva. Às vezes, basta dizer: esse livro existe graças a um processo coletivo e independente. Isso cria vínculo, não resistência.
Acesso e justiça podem coexistir
Definir um preço justo não significa fechar portas. Muitas iniciativas independentes trabalham com preços solidários, descontos em eventos, campanhas de pré-venda, trocas, doações e ações comunitárias. O preço cheio sustenta o projeto; as variações ampliam o alcance.
O problema não está em flexibilizar — está em desvalorizar como regra. Quando tudo é exceção, nada se sustenta.
O que a Toma Aí Um Poema acredita sobre precificação
Na Toma Aí Um Poema, entendemos o preço como um pacto ético entre quem escreve, quem edita e quem lê. Um pacto que precisa equilibrar acesso, dignidade e continuidade. Não acreditamos em preços inflados nem em romantização da precariedade. Acreditamos em clareza, responsabilidade e cuidado com o trabalho da palavra.
Definir o preço de um livro de poesia independente é, no fim, um gesto político: afirmar que a poesia importa, que o trabalho criativo tem valor e que é possível construir caminhos fora da lógica predatória do mercado — sem abrir mão da sobrevivência.
Se você publica poesia, nosso convite é simples e necessário: precifique com consciência, não com culpa. A literatura agradece.