Eu acho que alguns livros não são feitos para “prender” a gente: são feitos para segurar. Como uma mão discreta na nuca, guiando a travessia quando a rua está cheia de risco e distração. As Crianças tem esse tipo de presença. Ele não grita, não faz pose, não tenta ser maior do que é — e justamente por isso vai ficando grande dentro da gente, como ficam grandes as coisas simples que voltam na memória quando o mundo desacelera por um segundo.
O que Luiz Felipe Leprevost escreve aqui são crônicas, sim. Mas eu prefiro pensar como pequenos dispositivos de permanência: cenas capturadas no instante em que quase se perderiam. Um gesto do pai. Um cheiro antigo. Um mapa de ruas que ainda existe dentro do corpo. Um domingo. Um medo. Um bebê olhando o mar como se estivesse inaugurando o planeta. A crônica, nesse livro, não serve para “opinar sobre a vida” — serve para devolver a vida ao lugar em que ela realmente acontece: no detalhe.

1) O título não é tema: é ponto de vista
“As crianças” não são só personagens (embora sejam muitas vezes personagens, reais, lembradas, inventadas, reencontradas). “As crianças” é um modo de ver.
O livro parece insistir numa ideia sem virar lição: há um jeito infantil — no melhor sentido — de perceber o mundo. Um jeito que ainda acredita nas coisas, que repara, que se espanta, que coleciona pequenos brilhos. E esse jeito não some quando a gente cresce. Ele apenas fica escondido, soterrado por compromissos, prazos, ansiedade, dureza. A escrita do Leprevost funciona como escavação: vai cavando até achar esse olhar de novo.
2) Vozes, memória, vida, amores, tempo: uma casa com cinco quartos
A estrutura do livro é como uma casa dividida em cinco partes — “Vozes”, “Memória”, “Vida”, “Amores” e “Tempo”. O curioso é que, mesmo com esses nomes, não há separação rígida: a memória invade a vida, o amor invade o tempo, o tempo invade tudo. É como se o autor dissesse: não existe prateleira que organize por completo o que sentimos.
“Vozes” abre com uma espécie de convite: entrar na imaginação sem exigir lógica. Ali aparecem fábulas e pequenos delírios que não são fuga do real — são um jeito de revelar o real por outras frestas, com humor, estranheza e uma certa poesia que não pede permissão.
“Memória” é o coração mais silencioso: o bairro antigo, a praça, o relógio na parede, os avós, a casa que virou outra coisa, o jardineiro com sua carroça atravessando uma Curitiba que já não é a mesma. A nostalgia, aqui, não é romântica: é concreta. Tem poeira, tem mudança urbana, tem o desconforto de voltar e perceber que você também virou uma pessoa “de outro planeta” dentro do próprio passado.
“Vida” chega com a paternidade como força reordenadora: não no sentido idealizado, mas no sentido profundo, quase filosófico. Como se ter um filho reorganizasse a escala do mundo, e, ao mesmo tempo, abrisse um corredor direto para tudo aquilo que você foi — e para tudo aquilo que você ainda precisa aprender.
“Amores” e “Tempo” ampliam o campo sem perder a intimidade. O amor aparece como cotidiano e como assombro: aquilo que sustenta, que dá chão, que dá riso, que dá medo. O tempo aparece como matéria inevitável — não aquele tempo abstrato, mas o tempo que passa no corpo, no café da tarde, na arrumação da biblioteca, no aniversário, no susto de perceber que os anos caminham enquanto a gente achava que estava só vivendo.
3) A crônica como forma de cuidado
Uma das coisas mais bonitas do livro é a sua recusa do espetáculo. O texto prefere o gesto miúdo: atravessar a rua com o pai; lembrar do cheiro de uma loção; rever um livro antigo da avó; imaginar cenas enquanto organiza prateleiras. Essas escolhas vão construindo um efeito que eu chamaria de cuidado narrativo: como se escrever fosse uma maneira de proteger aquilo que o tempo costuma apagar.
E há, por baixo dessa delicadeza, uma sombra verdadeira: perdas, luto, saudade, o tipo de falta que não se resolve. Mas o livro não dramatiza. Ele apenas sustenta — como quem acende uma luz baixa para atravessar a noite sem tropeçar em si mesmo.
4) O que fica depois
Terminar As Crianças dá uma sensação estranha e boa: como se a gente tivesse sido visitado por um álbum que não é de fotos, mas de sensações. E aí fica a pergunta que o próprio livro parece sugerir o tempo todo: o que é que a gente salva quando escolhe lembrar?
Talvez não sejam os grandes acontecimentos. Talvez sejam os gestos de proteção, as pequenas epifanias domésticas, os mapas internos, os objetos deslocados, as frases que os pais dizem sem imaginar que viram bússola para sempre.
Se o mundo fosse uma crônica, talvez coubesse melhor dentro dela — o livro diz isso com o próprio corpo. E a gente, lendo, entende que às vezes o que cabe melhor na vida não é uma explicação. É um instante bem guardado.
Ficha do livro
Título: As Crianças
Autor: Luiz Felipe Leprevost
Gênero: crônicas
Selo: Praga (TAUP — Toma Aí Um Poema)
Edição: 1ª edição, 1ª impressão
Publicação: 31 de maio de 2025
Formato: 14 x 21 cm, 200 páginas
ISBN: 978-65-985619-5-6