Há livros que pedem pressa e há livros que pedem presença. Alípede: sonhar que tenho asas nos pés, de Valentina Rosa Maciel, pertence à segunda categoria: é um livro que convida a desacelerar, a respirar entre um poema e outro e a aceitar que certas imagens só se revelam por inteiro depois da leitura. Publicado em 2025, o volume reúne poemas em duas partes, “assombro” e “âmago”, e já anuncia desde a estrutura um percurso de profundidade, deslocamento e intimidade com a linguagem.
Desde o título, o livro trabalha uma tensão bonita entre corpo e sonho. “Sonhar que tenho asas nos pés” transforma o movimento em metáfora sensível: não se trata apenas de fugir do chão, mas de reinventar a forma de pisá-lo. Essa mesma tensão percorre os poemas de Valentina Rosa Maciel, que se aproximam do cotidiano, do desejo, da memória, do corpo e da paisagem sem perder densidade lírica. Em vez de explicar o mundo, a autora parece tateá-lo por imagens, ritmos e lampejos.

Sobre o que fala Alípede?
Uma boa forma de apresentar Alípede é dizer que este é um livro sobre o que há de mais delicado e mais indizível na experiência de estar viva. O prefácio destaca justamente esse gesto de mergulho: a escrita de Valentina se volta para “os núcleos indizíveis do que é sentir-se humano”, para “o cerne frágil e vívido das alegrias que habitam na pequenez”.
Essa formulação ajuda a entender o tom do livro. Em Alípede, a poesia nasce do detalhe, mas não fica pequena. Pelo contrário: o detalhe se expande. Um espelho, a seca em Brasília, a insônia, a casa, o vento, a água, os nós do corpo, a estrada vazia, a memória amorosa — tudo pode se converter em matéria poética. O resultado é uma escrita que se move entre introspecção e abertura, entre fragilidade e força.
Uma poética do corpo, da paisagem e da linguagem
Um dos aspectos mais marcantes do livro é a maneira como corpo e linguagem aparecem entrelaçados. Já nos títulos dos poemas, isso se evidencia: “corporeidade”, “corpo é palavra”, “fôlego”, “vínculo”, “mergulho”. Há uma consciência muito viva de que sentir também é nomear — e de que nomear nunca dá conta de tudo. Essa fricção sustenta boa parte da beleza do livro.
Na primeira parte, “assombro”, o eu lírico parece atravessar zonas de descoberta, tensão e deslocamento. Poemas como “miragem”, “sou mulher bem antes de ser guindaste”, “corporeidade” e “brasília de sangue” mostram uma escrita que encena o corpo como território sensível e político, íntimo e poroso. Já na segunda parte, “âmago”, a dicção se volta ainda mais para o interior, sem perder a vibração imagética, como se o livro saísse do impacto da experiência para tocar seu núcleo afetivo. Essa organização em duas partes está explicitada no sumário da obra.
Outro elemento forte é a presença da paisagem. Brasília, a seca, os rios, as árvores, a estrada, o céu, o cerrado e a água aparecem não apenas como cenário, mas como extensão do estado emocional e da percepção poética. Em Alípede, a natureza não ilustra o poema: ela participa de sua respiração.
Por que ler Valentina Rosa Maciel agora?
Porque a poesia de Valentina Rosa Maciel não se acomoda em fórmulas fáceis. Ela escreve a partir de uma sensibilidade muito própria, capaz de unir delicadeza, estranhamento, tato imagético e densidade emocional. Sua voz poética é interessada no inesperado e no indizível — formulação que, aliás, aparece também em sua nota biográfica ao final do livro. A autora é poeta, tradutora de francês e inglês, revisora de textos, mora em Brasília, integra o portal Fazia Poesia desde 2021 e desenvolve pesquisa em Estudos da Tradução na UnB. Alípede é apresentado como seu primeiro livro, surgido de uma plaquete homônima.
Esse contexto importa porque ajuda a perceber a precisão do trabalho verbal do livro. Há uma autora atenta à sonoridade, às dobras do sentido e ao modo como uma imagem pode sustentar várias camadas ao mesmo tempo. Por isso, Alípede interessa tanto a leitoras e leitores já habituados à poesia brasileira contemporânea quanto àqueles que buscam uma porta de entrada sensível para o gênero.
O que torna Alípede um livro especial?
Primeiro, a coerência estética. O livro constrói uma atmosfera própria do início ao fim. Além dos poemas, o projeto editorial reúne fotografias e uma pintura de capa assinadas pela própria autora, enquanto a direção editorial é de Jéssica Iancoski e Mabelly Venson, com projeto gráfico e diagramação de Jéssica Iancoski. Esse conjunto reforça a unidade entre palavra, imagem e materialidade do livro.
Segundo, a capacidade de reunir temas amplos sem cair no genérico. Em Alípede, amor, desejo, memória, corpo, tempo e deslocamento aparecem filtrados por uma linguagem concreta, imagética e sensorial. A poesia não se apresenta como ornamento, mas como forma de investigação.
Terceiro, a leitura deixa eco. Há livros que se encerram na última página; este não. Muitos poemas de Alípede permanecem reverberando como cenas internas, sons ou pequenos abalos de percepção.
Indicação de leitura: para quem este livro é ideal?
Alípede: sonhar que tenho asas nos pés é uma excelente indicação de leitura para quem:
- gosta de poesia brasileira contemporânea;
- procura livros em que corpo, linguagem e paisagem se cruzam;
- se interessa por uma escrita lírica, imagética e sensorial;
- quer conhecer novas vozes da poesia publicada no Brasil;
- busca um livro de poesia que possa ser lido aos poucos, com releitura.
Também é uma ótima escolha para clubes de leitura, projetos de formação de leitores e conteúdos voltados à circulação de literatura contemporânea escrita por mulheres.
Informações editoriais sobre Alípede
O livro foi publicado em 28 de abril de 2025, em 1ª edição / 1ª impressão, com 72 páginas, ISBN 978-65-6064-151-8, classificado como poesia/literatura brasileira.