A louca escrevendo seu nome na linha pontilhada, de Ana Dilah — poesia como assinatura, risco e sobrevivência

Há livros que não “se apresentam”: se inscrevem. A louca escrevendo seu nome na linha pontilhada, de Ana Dilah, é desses. Desde o título, a imagem é clara e incômoda: existe uma linha esperando um nome — e, com ela, tudo o que uma assinatura pode carregar (autorização, contrato, sentença, internação, pertença, culpa). Ana não pede licença: ela assina. E transforma esse gesto num ato poético de coragem.

O livro nasce como colagem de vida, “retalhos juntados ao longo de décadas”, mas não no sentido nostálgico. É memória em estado elétrico: o passado não vem como álbum, apenas como impacto. Os poemas operam com a lógica do estalo, do tropeço, do “ponto cego” que, de repente, vira linguagem. E a linguagem aqui não busca acabamento: busca verdade.

Capa A Louca escrevendo seu nome na linha pontilhada, de Ana Dilah

Um projeto poético que assume a loucura como linguagem

A abertura já nos avisa: não é um livro feito para ser domesticado. Há um chamado para uma “escuta radical”, dessas que aceitam o que não cabe em explicação. O prefácio de Febraro de Oliveira aproxima essa escrita de uma fala que foi muitas vezes interditada — e dá a chave: Ana escreve como quem precisa escrever para não morrer (ou morrer menos).

E é importante dizer: “loucura”, aqui, não é fantasia estética. É tensão real — atravessada por diagnóstico, pelo corpo em alerta, pela ansiedade que paralisa, pela solidão barulhenta, pelo medo e pelo excesso. O poema “CID” ironiza a frase pronta do “coach” e devolve a vida ao lugar onde ela realmente acontece: na contradição, na queda, no transbordamento — “só aprendo transbordando”.

Forma: entre poesia concreta, ruído e lâmina

O que mais chama atenção em A louca… é o modo como a autora usa a página como campo de força. Há poemas em que a palavra vira som, vira repetição, vira tropeço; há outros em que o verso é lâmina curta — como em “Guilhotina”, que corta sem cerimônia e deixa o leitor ouvindo o “depois” do corte.

Ana vem de uma vivência com poesia (e também com artes visuais), e isso se percebe na composição: letras que gritam em caixa alta, linhas que se quebram, palavras coladas (“palavrasescudo”), ritmos que lembram cantiga, sirene, trilho de trem, badalo de sino. O efeito é de uma escrita que não quer ser apenas lida — quer ser ouvida e sentida no corpo.

Temas: infância, país, cidade, afeto e a permanência do tremor

O livro se organiza em duas partes e percorre uma constelação de temas que se repetem como obsessões necessárias:

  • a infância como lugar de marca e jogo (onde “brincar” pode virar ferida);
  • o Brasil como esquina onde se perde “confiança” (um poema que parece bilhete e assalto ao mesmo tempo);
  • a cidade em sua intensidade descomunal;
  • o tempo que não espera (“o trem passou”);
  • e, sobretudo, a tentativa de sustentar algum tipo de carinho possível sem falsificar a vida.

Mesmo quando fala do amor, Ana evita o confortável: o afeto aparece misturado a medo, memória, brincadeira e ameaça — um amor que é “pique-pega”, “morto-vivo”, aquilo que a gente tenta esconder e, ainda assim, vive.

O que fica depois da leitura

Este é um livro que não se prende a receitas — e talvez por isso seja tão raro. Ele não “explica” a dor, não “organiza” o caos para o leitor consumir com tranquilidade. Ele oferece outra coisa: presença. O tipo de presença que treme, que gagueja, que faz barulho, que escreve em cima da própria linha pontilhada como quem diz: eu existo — e o meu nome também.

Ler A louca escrevendo seu nome na linha pontilhada é aceitar um pacto: o de acompanhar uma voz que se recusa a caber. Uma voz que, ao se afirmar, nos devolve uma pergunta desconfortável e bonita: quantas partes de nós mesmas a vida tentou calar — e o que acontece quando a gente assina por cima disso?


Ficha rápida

  • Título: A louca escrevendo seu nome na linha pontilhada
  • Autora: Ana Dilah
  • Editora: TAUP — Toma Aí Um Poema (Associação Toma Aí Um Poema)
  • Ano: 2025 (publicado em 5 de julho de 2025)
  • ISBN: 978-65-83841-19-3

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