
Sempre que uma obra de uma autora negra, indígena, trans ou periférica tenta furar o cerco do mercado editorial, alguém aparece com o argumento da “qualidade literária”. É a cartada final. O parecer técnico que mascara o preconceito. A desculpa polida que legitima o silenciamento.
Mas a verdade é que, muitas vezes, o discurso da qualidade é usado como uma forma elegante de manter as estruturas no lugar. Uma censura que não diz “não queremos você”, mas diz “você ainda não está pronta”.
Uma censura branca, elitista, meritocrática. E, por isso, mais difícil de nomear — e mais perigosa.
Porque essa ideia de qualidade quase nunca vem acompanhada de critérios objetivos.
O que é qualidade? Quem define? Com base em que referências? Quem escreveu os livros que formaram esse gosto literário? Quem ocupou as prateleiras durante séculos? Quem foi lido e relido, enquanto outras vozes eram apagadas?
A crítica tradicional costuma dizer que qualidade se vê pela forma, pela originalidade, pela linguagem bem construída. Mas quando uma poeta travesti quebra a norma culta e inventa outra língua, isso é visto como erro — não como invenção.
Quando um autor da quebrada usa o ritmo do funk ou do slam, isso não é lirismo — é “ruído”.
Quando uma mulher escreve sobre maternidade, afeto e cotidiano, isso é “pessoal demais”.
Mas quando um homem branco escreve sobre o mesmo tema, vira universal.
A régua da qualidade é torta. E quase sempre está nas mãos de quem nunca precisou lutar para ser lido.
Não estou dizendo que todo texto deve ser publicado. Mas sim que os critérios usados para excluir vozes dissidentes precisam ser questionados. Porque o que está em jogo não é só gosto, é estrutura. É poder.
A literatura é histórica. E o que chamamos de qualidade é sempre uma construção cultural baseada em quem teve acesso à escrita, à leitura, à crítica, à publicação. Quando dizemos que algo não tem “qualidade literária”, muitas vezes estamos apenas dizendo: “não se parece com o que eu aprendi a admirar.”
Na Toma Aí Um Poema, escolhemos fazer diferente.
O que nos interessa não é se o texto se encaixa no cânone. É se ele tem voz, urgência, desejo de existir. É se alguém, em algum lugar, pode se reconhecer naquela palavra.
Porque o livro também é lugar de representatividade, de justiça e de presença.
Qualidade não pode ser sinônimo de exclusão.
A literatura que transforma não é a que repete os modelos consagrados — é a que rasga, que inventa, que rompe.
E se a sua régua não mede essa potência, talvez o problema esteja na régua.
Jéssica Iancoski
Jéssica Iancoski (1996) é editora, poeta e articuladora cultural. Presidente da Associação Privada Sem Fins Lucrativos Toma Aí Um Poema, a primeira editora no modelo ONG do Brasil, já faturou mais de R$ 1 milhão no mercado editorial, consolidando-se como referência em inovação e impacto social. Graduada em Letras (UFPR) e Psicologia (PUCPR), com especializações em Gestão de Projetos e Negócios, é autora de mais de 10 livros, incluindo A pele da pitanga (finalista do Prêmio Jabuti). Reconhecida por sua atuação inclusiva, publicou mais de 2 mil autores e produziu mais de 1.500 poemas audiovisuais, alcançando 1 milhão de acessos. Jéssica também recebeu prêmios como o Candango de Literatura (GDF) e Sérgio Mamberti (MinC) e, atualmente, é curadora do Prêmio Literário da Cidade de Curitiba.