Há livros que se leem como contemplação. Outros, como confronto. (Sobre)viver e morrer num corpo de mulher, de Francine Cruz, pertence a essa segunda categoria: é um livro que encara de frente o que significa existir em um corpo feminino em uma sociedade patriarcal. Publicado pela Toma Aí Um Poema em 2025, o volume se apresenta como um manifesto visceral sobre luta, vulnerabilidade, força, maternidade, abuso, silenciamento e dignidade.
A apresentação do livro já anuncia esse tom ao afirmar que a obra mergulha nas dualidades da experiência feminina — “a delicadeza e a força, a vulnerabilidade e o sagrado” — e confronta, sem filtros, temas urgentes como padrões de beleza, abuso, maternidade e liberdade. Essa chave é decisiva: Francine Cruz escreve com clareza, contundência e coragem, transformando a poesia em espaço de denúncia e de afirmação da vida.

Sobre o que fala (Sobre)viver e morrer num corpo de mulher?
O livro reúne poemas e textos poéticos sobre a experiência de ser mulher em suas várias camadas: infância, corpo, sexualidade, maternidade, violência simbólica, violência física, medo, vergonha, imposição de padrões, autonomia e resistência. O sumário já deixa isso evidente, com títulos como “Nunca fui uma menina”, “Infinitivo”, “Da natureza da moça”, “Da natureza do macho”, “Por trás da moral e dos bons costumes”, “Mãe 1”, “Não há nada mais sagrado que uma mulher”, “Feminicídio”, “Corpo padrão inalcançável” e “O espelho”.
Não se trata, porém, de um livro monotemático. O que Francine faz é costurar experiências distintas sob um mesmo eixo: o corpo da mulher como campo de disputa, memória e sobrevivência. Em uma página, o livro fala da menina que nunca se encaixou nos padrões de feminilidade; em outra, aborda assédio religioso, culpa, maternidade de risco, histerectomia, medo, autoimagem e feminicídio. Tudo isso compõe uma cartografia intensa do ser mulher no presente.
Uma poesia que sangra porque resiste
No prefácio, Mabelly Venson escreve que “sobreviver é verbo poético” e que Francine “escreve como quem sangra”. É uma leitura precisa. O sangue atravessa o livro tanto no sentido literal quanto simbólico: sangue menstrual, sangue do parto, sangue da dor, sangue da violência, sangue da memória, sangue da permanência.
Essa imagem organiza muitos dos poemas. Em “Elogios”, o eu poético transforma insultos e humilhações em força. Em “Da natureza da moça”, o sangramento vira constrangimento e culpa social. Em “E sangra”, depois da retirada do útero, o poema afirma que o fim da menstruação não significa o fim das feridas: uma mulher pode sangrar de muitas outras maneiras.
É justamente aí que o livro ganha densidade: ele não trata o corpo feminino como abstração, mas como experiência concreta e histórica.
Feminilidade, padrões e recusa do encaixe
Um dos textos mais fortes da primeira parte é “Nunca fui uma menina”, em que Francine Cruz rememora uma infância desalinhada dos modelos esperados para as meninas. A boneca Barbie aparece não como fantasia, mas como símbolo de um padrão imposto, inútil e repulsivo para quem não se reconhecia naquela encenação da feminilidade. O poema articula infância, consumo, publicidade e inadequação com bastante força.
Esse tema reaparece em “Corpo padrão inalcançável”, dedicado a Juliana, em memória. O poema denuncia os efeitos fatais de uma cultura que empurra mulheres para cirurgias, inadequação constante e submissão a ideais estéticos impossíveis. A crítica é direta: mais uma vítima de uma sociedade em que a mulher é ensinada a existir como troféu.
Assim, o livro se torna também uma crítica aguda ao modo como o patriarcado organiza o olhar sobre o corpo feminino.
Violência, abuso e silenciamento
Outro eixo central do livro é a violência. Em “Da natureza do macho”, “Por trás da moral e dos bons costumes” e “SANCTA TRINITAS”, Francine Cruz escreve sobre abuso, assédio e culpabilização da vítima em registros que misturam indignação e lucidez. Especialmente em “SANCTA TRINITAS”, o livro aborda a violência cometida em ambientes religiosos, desmontando a aparência moral de figuras investidas de poder e mostrando como o silêncio também participa da agressão.
Há, nesses textos, uma escolha importante: a autora não suaviza. A poesia não aparece como ornamento nem como embelezamento da dor. Ela aparece como forma de nomeá-la.
Em “Feminicídio”, a concisão é brutal: “Flores na cabeça / Adornam o rosto pálido / Ferido por um animal / Chamado homem”. O impacto vem justamente da síntese.
Maternidade, exaustão e amor
O livro também dedica espaço importante à maternidade. Mas, novamente, Francine evita idealizações simplistas. Em “Mãe 1”, a gravidez e a maternidade aparecem atravessadas por questões médicas, risco, cuidado, medo e sistema público de saúde. O poema, estruturado em tom bíblico, reescreve a narrativa da criação a partir do corpo de uma mulher com histórico de trombose, reposicionando o discurso sobre gestação, medicina e poder.
Já em “Previsões” e “Não há nada mais sagrado que uma mulher”, a maternidade se liga ao amor profundo pela filha e à angústia de educar uma menina num mundo violento. Este último texto é especialmente forte ao mostrar que amar uma filha é também saber que ela precisará aprender cedo demais a se defender. A experiência materna aparece, então, como mistura de ternura, alerta e vulnerabilidade.
Verbo, não substantivo
Um dos núcleos conceituais do livro está em “Infinitivo”, quando a autora reivindica ser “verbo e não substantivo”. A frase já aparece também na apresentação da obra e ajuda a entender sua poética: Francine Cruz recusa a mulher como identidade imóvel, objeto nomeado ou categoria passiva. A mulher, aqui, é ação. É amar, xingar, cantar, trepar, beber, comer, fazer, sorrir, parir.
Essa defesa da mulher como verbo é uma das ideias mais fortes do livro, porque transforma a resistência em movimento. Não basta sobreviver: é preciso viver em ação, fora da inércia, contra o silenciamento.
Projeto gráfico, coleção e identidade visual
O livro também se destaca pelo projeto visual. A capa, o projeto gráfico e a diagramação são assinados por Jéssica Iancoski, com imagens e formas gráficas em vermelho, azul, preto, verde e laranja, criando uma identidade vibrante, direta e simbólica. O volume integra a Coleção Gralha Azul: Autorias Paranaenses, apresentada nas páginas finais como uma iniciativa voltada a celebrar a força da escrita produzida no Paraná.
Essa informação é importante porque situa o livro num recorte editorial específico: trata-se de uma obra que, além de sua potência temática, também participa de um projeto de valorização territorial e literária.
Quem é Francine Cruz?
Nas páginas finais, Francine Cruz é apresentada como autora curitibana, nascida em 1984, com 10 livros publicados e participação em dezenas de antologias. Em 2012, recebeu o prêmio Agente Jovem de Cultura, do Ministério da Cultura. Também integra coletivos literários e é criadora e apresentadora do canal Senhora Literatura, no YouTube. Seus textos já foram publicados no Brasil e em outros países.
Esse percurso ajuda a perceber a maturidade de sua escrita: há domínio de voz, clareza de posição e forte consciência política da linguagem.
Para quem este livro é uma boa indicação de leitura?
(Sobre)viver e morrer num corpo de mulher é uma excelente indicação para quem:
- lê poesia feminista brasileira;
- busca livros sobre corpo, maternidade, violência e resistência;
- se interessa por uma poesia direta, política e emocionalmente forte;
- quer conhecer autorias contemporâneas da literatura paranaense;
- procura um livro que funcione como leitura literária e também como gesto de debate.
Também é uma obra muito potente para clubes de leitura, mediações, eventos sobre literatura e gênero e contextos de formação crítica.