Poesia em rede social é literatura, sim — e o incômodo com isso diz muito

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Imagem de Thanasis Papazacharias por Pixabay

Quando a literatura sai do pedestal e encontra circulação popular, muita gente corre para desqualificar o suporte. Quase nunca o texto. Basta um poema viralizar no Instagram, um vídeo de poesia falada alcançar milhares de pessoas ou um verso circular no TikTok para surgir a reação previsível: “isso não é literatura”. O julgamento vem rápido, quase automático, como se a plataforma fosse capaz de rebaixar, por si só, a potência estética de uma obra. Mas esse reflexo revela menos sobre a qualidade dos poemas e mais sobre o desconforto de parte do campo literário diante da perda de controle sobre onde a literatura pode existir, circular e ser reconhecida.

O primeiro problema desse preconceito é a confusão entre suporte e valor. Um poema publicado em livro não se torna bom apenas por estar em papel, assim como um poema postado em vídeo não se torna ruim apenas por estar numa rede social. O suporte altera leitura, ritmo, recepção e alcance, claro. Mas não determina sozinho a força literária do texto. A história da literatura, aliás, é também a história de suas transformações materiais: oralidade, manuscrito, imprensa, revista, jornal, zine, blog, palco, audiobook, vídeo, feed. A ideia de que só há legitimidade num formato tradicional ignora que a literatura sempre se moveu junto com os meios de circulação de seu tempo.

O segundo problema é o elitismo embutido na rejeição ao alcance popular. Quando um poema chega a muita gente, emociona, é compartilhado, comentado, reinterpretado e colocado em circulação viva, isso deveria acender uma pergunta crítica interessante: o que esse texto ativou? Mas, em vez disso, muita gente prefere reagir com desprezo, como se popularidade fosse indício de rebaixamento. É uma postura reveladora. Não se critica apenas a forma do poema; critica-se o fato de ele ter escapado dos circuitos tradicionais de validação. O que incomoda não é só o verso curto, a performance ou a linguagem direta. O que incomoda é a literatura ter encontrado leitores sem pedir licença ao tribunal de sempre.

Há ainda um terceiro ponto importante: as redes sociais reembaralharam as fronteiras entre página, voz, corpo e presença. Isso mexe com uma tradição que ainda insiste em tratar o livro impresso como destino final e mais legítimo da experiência literária. Só que poesia nunca foi apenas página. Foi oralidade, memória, ritmo, recital, performance, encontro. O vídeo, o áudio e a circulação digital não inventaram a dimensão viva da poesia — apenas recolocaram essa dimensão em evidência. Quando a poesia falada cresce em reels, slams, leituras performáticas e conteúdos audiovisuais, ela não está abandonando a literatura. Está lembrando ao campo que literatura também pode ser voz, tempo, corpo e partilha.

Um exemplo concreto do mercado aparece na forma como certos autores e autoras que nasceram ou cresceram nas redes são imediatamente tratados com suspeita, mesmo quando constroem audiência real, linguagem própria e relação consistente com leitores. Antes mesmo de se discutir imagem, ritmo, elaboração, repertório, construção poética ou permanência da obra, o debate costuma ser sequestrado por um preconceito anterior: “poesia de internet”, como se isso bastasse para desqualificar qualquer análise séria. É curioso, porque o mesmo campo que celebra a formação de leitores frequentemente despreza os lugares onde leitores estão, de fato, sendo formados hoje. Quer público, mas desconfia da linguagem que o alcança. Quer circulação, mas teme a circulação que não controla.

Isso não significa dizer que tudo o que viraliza é bom, nem que toda poesia em rede social é forte apenas por existir ali. Evidente que não. Há textos frágeis, fórmulas repetitivas, apelo emocional raso e estética de algoritmo, como há também livros frágeis, poemas superestimados e autores legitimados mais pelo circuito do que pela obra. O ponto não é idealizar as redes. É recusar a preguiça crítica de tratá-las como território automaticamente menor. A boa pergunta não é “isso está no TikTok, então presta?”. A boa pergunta continua sendo: o que esse poema faz com a linguagem, com o leitor, com a escuta, com o tempo e com a experiência?

Talvez o incômodo real seja mais profundo. Quando a poesia circula nas redes, ela desafia o monopólio de mediação de quem, por muito tempo, decidiu o que podia ou não ser chamado de literatura. Ela se desloca, muda de velocidade, testa outras formas de recepção e encontra leitores que talvez nunca entrassem por uma porta mais tradicional. Isso incomoda porque enfraquece a ilusão de que o valor literário nasce apenas em espaços reconhecidos. E essa talvez seja a grande ferida narcísica do campo: descobrir que a literatura continua existindo, sendo lida e produzindo efeito mesmo fora dos lugares onde ele aprendeu a se sentir soberano.

No fim, a questão não é se poesia em rede social pode ser literatura. Pode — e muitas vezes é. A questão é por que ainda há tanta gente interessada em negar isso antes mesmo de ler, ouvir ou analisar com seriedade o que está sendo feito. Porque, quando o suporte vira desculpa para não encarar o texto, talvez o problema nunca tenha sido a poesia. E a pergunta que fica é inevitável: o que assusta mais parte do campo literário — a suposta fragilidade dos poemas que circulam nas redes ou o fato de eles estarem encontrando leitores sem depender da autorização de sempre?

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