Publicar não deveria ser privilégio de quem já nasceu validado

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Existe uma mentira elegante sustentando o campo literário brasileiro: a de que publica quem “merece”. A frase parece justa, técnica e até democrática. Afinal, quem seria contra mérito, talento e qualidade? O problema é que, na prática, quase nunca publica quem simplesmente escreve bem. Publica, com muito mais frequência, quem já teve acesso, rede, tempo, dinheiro e algum tipo de validação anterior. O mercado editorial adora vender a ideia de descoberta, mas o que ele mais faz é reconhecer quem já chega reconhecido.

O primeiro problema dessa lógica é que ela transforma acesso em recompensa, quando deveria tratá-lo como condição básica de participação cultural. Antes mesmo de um original ser lido, já existem barreiras silenciosas operando: quem teve formação leitora mais sólida, quem pôde frequentar eventos, quem conhece alguém do meio, quem sabe escrever um bom e-mail de apresentação, quem tem repertório de mercado, quem pode esperar meses por uma resposta sem depender financeiramente daquele trabalho. O texto nunca entra sozinho. Ele entra acompanhado da história social de quem escreveu.

O segundo problema é a romantização da validação prévia. O campo editorial costuma dizer que está buscando “novas vozes”, mas, muitas vezes, só considera nova a voz que já chega respaldada por oficina, prêmio, indicação, seguidores, circulação ou algum selo de respeitabilidade reconhecível. Em vez de abrir porta para quem está fora, o sistema cria novas versões da mesma porta de sempre. Trocam-se os nomes, atualiza-se o discurso, mas o filtro continua funcionando: entra mais facilmente quem já foi aceito em algum lugar antes.

Há ainda um terceiro ponto que quase sempre é ignorado: o custo invisível de permanecer tentando. Submeter originais, acompanhar editais, circular em lançamentos, produzir presença digital, se manter intelectualmente ativo e emocionalmente disponível para rejeições sucessivas exige tempo, energia e dinheiro. Nem todo mundo pode insistir indefinidamente até ser lido. Nem todo mundo consegue transformar espera em estratégia. Quando o mercado chama isso de meritocracia, ele está apenas escondendo o quanto a permanência também é um privilégio.

Um exemplo concreto disso aparece na própria ideia de “autor promissor”. Em geral, esse rótulo não surge do nada. Ele costuma ser atribuído a quem já passou por determinados circuitos de legitimação: cursos, feiras, residências, premiações, festivais, redes de contato ou boa presença nas plataformas. Nada disso é necessariamente ruim. O problema é quando esses mecanismos deixam de ser ponte e passam a funcionar como pedágio. O autor não é lido apenas pelo que escreveu, mas pelo currículo de aceitação que conseguiu acumular antes mesmo de ser realmente publicado. E então o mercado chama de descoberta aquilo que, na verdade, foi apenas confirmação.

Se publicar continuar sendo tratado como prêmio, a literatura seguirá reproduzindo o mesmo retrato social de sempre, ainda que com nova linguagem, nova embalagem e novo marketing. Democratizar a publicação não significa abolir critério, muito menos fingir que todo texto está pronto. Significa, antes de tudo, reconhecer que critério sem acesso é só exclusão com vocabulário sofisticado. A pergunta que fica é simples, mas incômoda: o mercado editorial quer mesmo descobrir novas vozes — ou só se sente confortável validando quem já chega validado?

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