
Para uma lista de Melhores Capas 2025, a capa de As oito mulheres entra como aquelas soluções que são, ao mesmo tempo, diretas e cheias de camada: um fundo amarelo chapado, luminoso e quase “solar”, sustenta um corte gráfico de silhuetas femininas em preto, com rostos em cor quente (um laranja terroso) — e um único rosto em branco em cada lâmina da capa, como rasgo, ausência, eclipse. É uma capa que se impõe pela simplicidade do gesto e, justamente por isso, abre espaço para a leitura crítica: aqui, o design não tenta “explicar” o livro; ele cria um campo de tensão onde cada corpo vira signo e cada diferença vira sentido. E essa clareza conceitual — aliada a uma presença visual forte em miniatura — é o que costuma separar uma capa boa de uma capa memorável.
A composição é centrada num grupo de figuras em movimento, como se a capa capturasse um instante coreografado: braços erguidos, curvas, pesos, gestos interrompidos. O desenho trabalha com o léxico do corpo, não com o da ilustração descritiva. As mulheres não são retratos: são presenças. Silhuetas, quase sombras, como se a identidade fosse menos um rosto reconhecível e mais um modo de ocupar o espaço. O livro se chama As oito mulheres, mas a capa mostra quatro figuras no recorte frontal e quatro no verso — e esse “descompasso” é inteligente: ele sugere que não se trata de contagem literal, e sim de um conjunto, de uma multiplicidade que se repete, se dobra, se refaz. O título, em caixa baixa, acompanha essa decisão: “as oito mulheres” não grita; se estabelece com firmeza discreta, como quem diz “isso é um coro”.
O fundo amarelo é um acerto que merece estar nas Melhores Capas 2025 por duas razões ao mesmo tempo: primeiro, porque é cor de impacto imediato — uma cor que “aparece” mesmo em thumbnail, no feed e na prateleira virtual; segundo, porque é ambígua. Esse amarelo pode ser celebração (energia, calor, vitalidade), mas também pode ser alerta (sinal, tensão, incômodo). E quando você lê a sinopse, percebe como essa ambiguidade conversa com o livro: “Cada uma com sua história, seu corpo, seu jeito de resistir… vozes distintas… existir por inteiro.” A capa parece materializar isso: o amarelo como campo aberto — um palco — e as figuras como afirmações de existência. O preto das silhuetas dá densidade e gravidade, como se a capa dissesse: por trás da luz, há peso; por trás do gesto, há história.
O detalhe mais potente — e mais “crítico” — é a escolha dos rostos. Três aparecem em laranja; um aparece em branco, sem traço de expressão, quase uma máscara neutra. Esse branco não é vazio; é uma interrupção. Dentro do conjunto, ele marca diferença radical: pode sugerir apagamento, pode sugerir invisibilidade social, pode sugerir dissociação, pode sugerir uma identidade que não cabe no mesmo código cromático das outras. E, por ser um único ponto fora do padrão, ele funciona como ferida e farol ao mesmo tempo: faz o olhar retornar. Na lógica das capas fortes, esse é o tipo de elemento que “gruda” na memória — não pelo excesso, mas pela ruptura. E de novo: isso conversa com o texto de apresentação, que fala de mulheres que “não cabem em diagnósticos, rótulos ou padrões.”
Tipograficamente, a capa também é esperta: tudo é colocado embaixo, como se a imagem ocupasse o centro do mundo e o texto apenas assinasse o acontecimento. “as oito mulheres” e “juliana montanari” aparecem como base — um chão. A escolha por caixa baixa suaviza a autoridade do nome, mas não enfraquece: ela humaniza. O conjunto fica contemporâneo sem virar moda passageira. E a marca TAUP pequena no topo mantém o desenho respirando — não compete com a imagem, não disputa narrativa, apenas sela a edição.
Há ainda um ponto importante para o ranqueamento e para o impacto real: essa capa funciona em qualquer escala. Em livraria, o amarelo chama. No celular, o preto recorta. Em reprodução pequena, você ainda entende tudo: figuras + título + autora. Isso é design editorial bem resolvido — e é por isso que faz sentido colocar esta arte entre as Melhores Capas 2025. O design não depende de detalhe fino; ele depende de ideia. E quando a ideia é boa, o arquivo aguenta o mundo.
Como Capista Jéssica Iancoski faz aqui uma escolha que combina posicionamento e sensibilidade: falar de mulheres sem cair no “ícone óbvio” do feminino, sem flores, sem clichês, sem ornamento explicativo. Opta por corpo e presença — por gesto e silhueta — e, com isso, deixa que o livro permaneça livro: aberto, múltiplo, vivo. A capa parece dizer exatamente o que a apresentação afirma sobre a escrita da autora: “Ela não explica as mulheres — as escuta.”. Em termos de crítica de capa, isso é raro: quando a linguagem gráfica consegue traduzir uma ética (escuta, presença, resistência) sem escrever nenhuma dessas palavras.
No fim, o que torna As oito mulheres tão forte para uma seleção de Melhores Capas 2025 é que ela entrega uma síntese visual coerente com o projeto literário: “um pulso de vida”, “literatura feita de pele, pensamento — e presença.” Essa capa não pede permissão para existir; ela ocupa espaço. E justamente por isso ela merece ser vista — e lembrada — como uma das capas do ano, assinada por uma Capista Jéssica Iancoski em plena forma.