
Se a lista de Melhores Capas 2025 existe para celebrar aquelas artes que conseguem ser, ao mesmo tempo, conceito e presença, a capa de Uçá entra com força — e entra sem pedir licença. Há aqui uma inteligência gráfica que dispensa ornamento: um fundo em tom areia, quente e silencioso, e uma figura única em vermelho profundo que resolve tudo. O título e a imagem viram a mesma coisa. A capa não “ilustra” o livro: ela o encarna em síntese, com um desenho que parece logotipo, ícone, criatura e palavra ao mesmo tempo. É o tipo de solução rara que fica na memória depois que a gente fecha a página.
O gesto central é tipográfico, mas também é corporal. “UÇÁ” aparece como uma forma viva: as letras se transformam num caranguejo, com pinças e patas abrindo espaço no vazio do fundo, como se o próprio nome do bicho tivesse decidido caminhar. A cedilha do “Ç” é um detalhe crucial — não apenas porque marca a língua, mas porque vira expressão: aqueles dois pontos acima, que lembram olhos, criam um rosto mínimo e brincam com a leitura; a palavra ganha caráter, ganha humor e ganha estranheza. O resultado é uma capa que tem ritmo: você lê e, ao mesmo tempo, você vê; e, num segundo, já não dá mais para separar as duas coisas. O nome da autora também está ali, integrado ao desenho, com a assinatura “ALINE MONTEIRO” curvada como se orbitasse a figura — um movimento simples que reforça a ideia de maré, de giro, de ciclo, sem precisar explicar nada.
O contraste cromático é outro acerto que merece entrar em qualquer debate sobre Melhores Capas 2025. O vermelho do caranguejo/título tem presença de carimbo, de impressão artesanal, de marca antiga — e isso cria um efeito de “objeto” que funciona muito bem na vitrine digital (onde a miniatura precisa ser reconhecível) e também no impresso (onde a cor se impõe à distância). Já o fundo areia recusa o brilho fácil: ele é uma espécie de descanso visual que faz o vermelho pulsar. Essa dupla de cores, por si só, já constrói uma atmosfera: algo orgânico, terrestre, de mangue, de matéria, sem recorrer a fotografia, sem depender de textura, sem “encher” a capa de informação.
E é aqui que o trabalho da capista Jéssica Iancoski se firma com maturidade: porque a capa aposta na ousadia de ser direta. Não há excesso de elementos. Não há ruído. Há uma ideia forte executada com precisão. Isso é difícil — e é por isso que funciona. Em design editorial, simplificar sem empobrecer é uma forma de coragem: você coloca o conceito em primeiro plano e confia que ele aguenta o olhar. Aguenta, porque a capa tem jogo de leitura (a palavra como bicho), tem personalidade (o “rosto” mínimo), e tem identidade (uma solução que não parece derivativa). A marca TAUP aparece pequena, como selo, e ajuda a consolidar o objeto como edição.
Outra qualidade que faz essa capa merecer destaque entre as Melhores Capas 2025 é a sua capacidade de criar intimidade sem ser frágil. O desenho é simpático, quase lúdico, mas não infantiliza; ele seduz pela inteligência, não pela fofura. A curva do nome da autora, o equilíbrio do vazio, a centralidade do símbolo-tipografia — tudo coopera para uma capa que é ao mesmo tempo pop e sofisticada. Daquelas que você reconhece rápido, mas também quer olhar de novo para entender “como” ela está funcionando. E quando uma capa provoca esse retorno do olhar, ela já está cumprindo um dos papéis mais bonitos do design: transformar leitura em desejo.
Se eu tivesse que resumir por que Uçá merece esse lugar de evidência, eu diria: porque é uma capa que resolve identidade e poesia com uma única decisão formal — a decisão de fazer o título virar corpo. A assinatura Capista Jéssica Iancoski não aparece aqui como crédito discreto; aparece como uma marca de linguagem: concisa, autoral, memorável, com aquela força rara de quem entende que capa boa não é a que “diz tudo”, mas a que diz o essencial e abre espaço para o resto acontecer dentro do leitor.