
Há livros que contam uma história. E há livros que constroem um organismo: um corpo feito de vozes, ossos, água, retratos, objetos, silêncios herdados. As enormes mandíbulas, de Daniela Cassinelli, pertence a essa segunda linhagem. A imagem que dá título ao livro — o tempo como boca enorme, roendo nossas vidas — não funciona como metáfora decorativa: ela é o motor de tudo. Aqui, o tempo é predador e costureiro ao mesmo tempo: devora, corta, rearranja, mas também sutura.
A narradora escreve como quem escava. Não para “reconstituir” um passado de forma limpa, e sim para tocar aquilo que permanece ativo no corpo: o luto, a culpa, a saudade, as genealogias, as repetições de gesto e de silêncio que atravessam gerações. A escrita vai abrindo camadas como quem abre caixas antigas: fotos manchadas, bibelôs, peças de uma casa que guarda mais do que móveis — guarda um modo de amar e de ferir.
O livro tem uma força particular por apostar num formato híbrido: é romance, mas pulsa como prosa poética. A frase alonga, respira, se deixa levar por associações, retorna, repete, derrapa — como a mente derrapa quando tenta lembrar de verdade. O resultado é uma leitura sensorial: tudo tem textura, peso, temperatura. Memória aqui não é arquivo; é maré, é umidade, é um som agudo “atrás do umbigo” que insiste.
O núcleo íntimo é intenso e corajoso: a narrativa não foge de zonas difíceis do corpo e da vida — perdas, traumas, interrupções, a experiência de uma dor que não cabe num único acontecimento. Mas o livro não transforma isso em espetáculo. Ao contrário: ele se interessa pelas consequências miúdas, pelos objetos que viram relicários, pelas pontadas que aparecem quando se anda rápido demais, pelos abismos que a família aprende a esconder com “arrumação” e rotina.
E é justamente quando olha para a família que As enormes mandíbulas amplia o campo: o lar não surge como lugar neutro. Surge como estrutura histórica e social — com seus papéis impostos, suas hierarquias, suas violências naturalizadas. Há momentos em que o texto encosta em questões de classe e raça com um desconforto necessário, mostrando como o cuidado pode conter ferida, e como certos afetos são atravessados por desigualdades antigas que continuam em funcionamento dentro da casa. O romance não dá sermão: ele expõe a engrenagem.
A linearidade, aqui, é sabotada com inteligência. O livro avança por fragmentos, blocos, espirais de lembrança: infância, adolescência, avós, pais, objetos, viagens, sonhos, cenas que reaparecem sob outra luz. Essa escolha formal combina com o tema: ninguém se lembra em linha reta. A memória retorna por gatilhos, por cheiro, por uma frase, por uma data, por um retrato. Daniela transforma esse modo real de lembrar em arquitetura narrativa — e é por isso que a leitura soa tão verdadeira, mesmo quando atravessa devaneios e imagens oníricas.
Apesar do peso, há uma espécie de beleza insistente: o livro acredita na palavra como gesto de reorganização do mundo. Escrever, aqui, é “tirar as coisas do lugar” — e isso vale tanto para a casa entulhada quanto para as narrativas que a família repete para sobreviver. No fundo, o romance pergunta: de que somos feitos? Quais nomes nos antecedem? Que parte da nossa história não conhecemos — e, ainda assim, carregamos?
No fim, As enormes mandíbulas deixa a sensação de que ler também é um tipo de escavação. A gente sai com as mãos sujas de tempo — e com um olhar mais atento para aquilo que vibra no silêncio entre gerações.
Ficha rápida
Título: As enormes mandíbulas
Autora: Daniela Cassinelli
Gênero: Romance (com forte pulsação de prosa poética)
Editora: TAUP — Toma Aí Um Poema
Ano: 2025 (1ª edição, 1ª impressão; publicado em 24 de julho de 2025)
Formato: 14 x 21 cm
Páginas: 170
ISBN: 978-65-83841-33-9