A dança áspera das raízes, de Bárbara Mançanares — quando o luto ganha geografia e a palavra aprende a cavar

A dança áspera das raízes, de Bárbara Mançanares

Há livros que não “contam” uma história: eles constroem um relevo. A dança áspera das raízes, de Bárbara Mançanares, é um desses livros em que a experiência humana não aparece apenas como lembrança ou confissão, mas como matéria física: terra, água, sal, pedra, ossos, maré, geada, mapa. A poeta parece escrever com as mãos sujas — não de sujeira, mas de mundo. Como se cada poema fosse uma escavação cuidadosa: um modo de tocar aquilo que está enterrado sem reduzir o subterrâneo a explicação.

O título já anuncia a tensão mais bonita do livro: dança e aspereza. Há movimento, mas há resistência. Há ritmo, mas ele não é liso. O que se move aqui é o que custa mover: a memória, o corpo, a casa, o idioma, a ideia de “origem”. E as raízes não são usadas como metáfora de conforto; elas aparecem como aquilo que prende, sustenta, fere e, ao mesmo tempo, insiste em crescer.

O livro se organiza como um percurso sem placas: os poemas (em sua maioria sem título) formam uma corrente contínua, como se a leitura atravessasse um território em mutação. O efeito é de caminhada: a gente avança por paisagens que parecem externas — mar, deserto, cordilheiras, geologia urbana — mas que, aos poucos, revelam seu verdadeiro endereço: a intimidade. Só que não uma intimidade fechada; uma intimidade que sabe que o pessoal é atravessado por clima, por ancestralidade, por trabalho, por cidade, por linguagem.

No centro desse relevo está o luto — especialmente o luto de uma figura paterna — tratado com uma delicadeza que não suaviza a dor. Em vez de monumentalizar a perda, a poeta mostra como ela se infiltra no cotidiano: no modo de olhar, no modo de dormir, no modo de nomear “casa”. O livro entende algo difícil: que certas despedidas começam muito antes do acontecimento final, e que enterrar alguém não é um gesto pontual, mas um tempo longo — um tempo que vai mudando o corpo de quem fica.

É por isso que a palavra “raízes” aqui deixa de ser genealogia no sentido mais óbvio e vira geologia do familiar. A família não aparece como álbum; aparece como camadas. Camadas de silêncio, de esforço, de infância, de trabalho invisível, de medo, de amor que não se diz com facilidade. A poeta faz o leitor sentir que “origem” não é uma foto antiga: é um sistema inteiro de forças — algumas nutritivas, outras brutais — que continuam atuando no presente.

A água, nesse livro, não é cenário. É método. Ela aparece como condutora de memória, como sal que conserva e também corrói, como maré que define o ritmo dos dias. Mas a água não domina tudo: ela encontra a terra — e é nessa mistura que o livro se torna tão palpável. Há barro, há argila, há uma sensação constante de matéria sendo moldada e, ao mesmo tempo, desmoronando. O poema vira esse lugar ambíguo: onde se tenta dar forma ao que não tem nome, sabendo que a forma nunca será definitiva.

A linguagem acompanha esse projeto. Bárbara escreve com imagens muito nítidas, mas nunca fáceis: são imagens que carregam textura. A leitura dá a impressão de que cada verso tem “superfície”: dá para sentir a aspereza das folhas, o peso dos ossos, a porosidade da terra, a vibração das coisas vivas. E há uma inteligência no modo como o livro trabalha as bordas — borda do corpo, borda do mapa, borda da casa, borda da palavra. Como se a poeta desconfiasse do centro e preferisse aquilo que, por ser limiar, é mais verdadeiro.

Outro mérito é que o livro não se fecha no luto: ele insiste numa pulsação de vida. Vida entendida não como alegria fácil, mas como trabalho miúdo de permanecer: regar plantas, catar feijão, atravessar a noite, suportar o ruído do mundo, negociar com a memória. Em vários momentos, a poeta parece propor um pacto com o que vive — mesmo sabendo que viver incomoda, desloca, exige coragem e reinvenção.

No fim, A dança áspera das raízes deixa uma sensação rara: a de que a poesia pode ser uma forma de arqueologia afetiva, mas sem nostalgia. Um livro que cava para compreender, cava para honrar, cava para não se perder — e, cavando, encontra não um “núcleo” definitivo, e sim raízes em movimento. Raízes que dançam, mesmo ásperas. E que, justamente por isso, sustentam.


Ficha rápida

Título: A dança áspera das raízes
Autora: Bárbara Mançanares
Editora: TAUP — Toma Aí Um Poema (Selo Praga)
Ano: 2025
Formato: 14 x 21 cm, 136 páginas
ISBN: 978-65-985619-6-3

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