Há livros que chegam como paisagem. Uçá, de Aline Monteiro, chega como maré: não “entra” na leitura — invade. É um livro que respira no ritmo do vai e vem, e faz do corpo um litoral móvel: ora carapaça, ora carne exposta; ora mangue, ora cidade; ora água que acalanta, ora água que arrasta. Uça – Aline Monteiro
A imagem do caranguejo (o uçá, guardião do manguezal) não é enfeite: é método, é estrutura, é ética. A poeta assume o gesto lateral do bicho — aquele modo de caminhar que contorna o que fere, observa o mundo pelo canto do olho e, quando precisa, pinça com precisão. O resultado é uma escrita que sabe endurecer por fora sem perder a delicadeza por dentro.

Um livro organizado como ciclo: maré, casca, troca e vulnerabilidade
O volume se organiza em quatro partes — “Maré”, “Exoesqueleto”, “Ecdise” e “Carnes moles” — e cada uma funciona como uma estação de um mesmo organismo: o corpo atravessando fases, testando limites, criando defesas, desfazendo defesas, recomeçando. É um percurso que não procura “conclusão”; procura movimento. Uça – Aline Monteiro
Em “Maré”, a linguagem é inundação: desejos, lembranças, astrologia, água e sal, encontro, ausência, o cotidiano virando mar. O amor não aparece como enfeite romântico, mas como fenômeno físico — algo que altera temperatura, textura, sono, respiração. Aline escreve como quem sabe que sentir é sempre um tipo de clima.
Já em “Exoesqueleto”, o livro endurece — e não por frieza, mas por sobrevivência. A cidade aparece como geometria que comprime, como força que exige forma, postura, “controle”. A carapaça vira metáfora direta daquilo que a gente constrói para continuar existindo: um escudo que protege, mas também pesa; que segura, mas também limita.
“Ecdise” é o momento de troca de pele: a palavra assume seu lado de ferida e de ferramenta. O livro diz, sem didatismo, que mudança não é maquiagem — é processo que expõe a parte mole, arrisca a carne, desafia o instinto de se esconder. Aqui, a poeta se interessa menos por “superação” e mais por honestidade do percurso: abrir caminhos, admitir o medo, continuar mesmo assim.
E “Carnes moles” leva essa proposta ao limite: o que acontece quando a vulnerabilidade não é fraqueza, mas verdade? O corpo aparece como lugar de gestação de si, de reinvenção e de memória. Há poemas que parecem dizer: “eu me faço”, “eu me refaço”, “eu me sustento” — e isso não tem nada de individualista: é quase uma ciência íntima, uma prática diária de permanecer viva.
Corpo, território e ancestralidade: o mangue como linguagem
Uma das forças mais bonitas de Uçá é como ele transforma paisagem em linguagem interna. O mangue — esse lugar misto, salobro, fértil, muitas vezes desprezado — vira símbolo daquilo que não cabe em categorias fáceis. Terra e água ao mesmo tempo. Dureza e maciez. Defesa e desejo.
Aline escreve a partir de um corpo-território: marcado por deslocamentos, por pertencimentos múltiplos, por referências de matriz africana (o livro convoca Yemanjá, Oxum, o axé, a benção), por uma espiritualidade que não aparece como “ornamento”, mas como modo de ler o mundo — e de se manter inteira quando a vida tenta reduzir a gente a um pedaço.
O livro também acerta ao recusar a ideia de um “eu” fixo. Em vez disso, trabalha com um eu em mutação, feito água: escorre, empoça, evapora, volta. A subjetividade aqui não é um centro estável; é maré mesmo — e isso é profundamente contemporâneo, porque combina com a nossa experiência real: ninguém é “uma coisa só”.
A linguagem: entre o sussurro e o impacto
Formalmente, Uçá é um livro que alterna velocidades e texturas. Há poemas que vêm em sopro curto, quase anotação de instinto; e há poemas que se derramam em blocos mais longos, com imagens insistentes, como se a frase precisasse de espaço para respirar. Há também jogos visuais e cortes de palavra que imitam o próprio movimento do mar e do corpo (as quebras lembram ondas; certos versos parecem caminhar de lado).
E tem uma qualidade rara: a coragem de não “embelezar” a dor. Quando a poeta fala de doença, de ansiedade, de vazio, de tempo que esmaga, ela não transforma isso em pose. Ela transforma em matéria. O poema vira bacia, vira filtro, vira maré interna — um lugar onde o que sufoca encontra vazão.
No fim, a escrita de Aline Monteiro é sensual sem ser óbvia, espiritual sem ser explicativa, política sem panfleto. Ela entende que, muitas vezes, a forma mais radical de resistência é continuar sentindo — e sentir com linguagem própria.
Por que ler Uçá?
Porque é um livro que não oferece respostas prontas — oferece marés. E maré não se domina: se aprende a atravessar.
Porque é uma poesia que trata o corpo com seriedade: corpo que deseja, que adoece, que dança, que cria casca, que troca casca, que volta a nascer.
Porque a leitura deixa um tipo específico de efeito: a sensação de que você foi molhada por dentro. E que, depois disso, certas secas já não servem mais.
Uçá é, no fundo, uma pergunta insistente — “de quantas mortes é feita uma vida?” — e uma decisão: a de responder com movimento, com presença, com palavra que transborda. Uça – Aline Monteiro
Ficha rápida
- Título: Uçá
- Autora: Aline Monteiro
- Editora: TAUP — Toma Aí Um Poema
- Ano: 2025
- ISBN: 978-65-83841-07-0