Divulgar poesia em escolas e universidades é uma das formas mais bonitas (e mais eficientes) de criar leitores reais. Porque, diferente das redes sociais — onde tudo compete com tudo — a escola e a universidade são lugares de encontro, mediação e permanência. Quando uma parceria dá certo, não é só um post que circula: é um livro que vira conversa, aula, atividade, memória coletiva.
Mas muita gente trava na mesma dúvida: como eu chego nesses espaços sem parecer invasiva, sem depender de “QI” e sem transformar poesia em propaganda? A resposta está em entender que parceria educacional não é venda direta. É troca. É projeto. É oferecer algo que seja útil para a comunidade escolar e acadêmica — e, ao mesmo tempo, coerente com sua obra.

Primeiro: trate como parceria cultural, não como “publicidade”
A maior chave para conseguir portas abertas é mudar o enquadramento. Em vez de “quero divulgar meu livro”, pense em “quero propor uma ação cultural e educativa em torno da poesia”. Escolas e universidades tendem a responder melhor quando a proposta tem intenção pedagógica, cultural e formativa: conversa com estudantes, oficina, leitura mediada, palestra, sarau, clube de leitura, encontro com a autora, atividade interdisciplinar, etc.
Isso não significa transformar poesia em “conteúdo escolarizado” ou engessado. Significa reconhecer que esses espaços precisam de clareza: o que acontece, por quanto tempo, para qual público, com quais recursos e qual contrapartida.
Onde começar: quem decide isso dentro de uma instituição?
Em escolas, geralmente as portas mais efetivas são: coordenação pedagógica, biblioteca escolar (ou sala de leitura), professoras de Língua Portuguesa/Literatura, projetos de leitura e grêmios estudantis (quando existem). Em universidades, vale mapear: departamentos de Letras, Pedagogia, Artes, História, Comunicação, bibliotecas universitárias, núcleos de extensão, centros acadêmicos, coletivos culturais e semanas acadêmicas.
O erro comum é mandar mensagem “para a escola” ou “para a universidade” como se fossem um bloco único. Instituições são redes internas. Quando você encontra o setor certo, a resposta muda completamente.
Tenha uma proposta simples, replicável e com opções
Uma parceria boa é aquela que cabe na agenda e no orçamento do outro lado. Por isso, propostas curtas e bem desenhadas funcionam melhor do que ideias grandiosas sem formato. Uma sugestão que costuma abrir muitas portas é oferecer três opções (com tempos diferentes) para a instituição escolher.
Exemplos de formatos possíveis:
- Encontro com a autora (40–60 min): leitura de poemas + conversa sobre processo criativo + perguntas.
- Oficina prática (60–120 min): escrita de poemas curtos, colagem, reescrita, poesia oral, experimentos com linguagem.
- Sarau mediado (60–90 min): leitura aberta com estudantes, professora mediando e autora como convidada.
- Clube de leitura (2 encontros): um encontro preparatório + encontro com a autora.
- Ação na biblioteca: curadoria de livros + bate-papo sobre leitura de poesia.
O segredo é oferecer algo que a instituição consiga executar mesmo se estiver com poucos recursos.
Materiais que facilitam o “sim”
Para aumentar suas chances, pense como quem recebe a proposta. A pessoa vai precisar encaminhar internamente, justificar e organizar. Quanto mais pronto estiver, mais fácil aprovar.
O que ajuda muito:
- um miniportfólio (quem é você, o que faz, quais temas trabalha);
- uma descrição objetiva do encontro/oficina (público, duração, necessidades técnicas);
- uma proposta de contrapartida (ex.: doação de 1–3 exemplares para a biblioteca, desconto para compra coletiva, exemplar de leitura para professoras);
- possibilidades de datas e formatos (presencial/online);
- indicação de faixa etária recomendada e temas sensíveis (se houver).
Esse cuidado tira a proposta do campo do “pedido” e coloca no campo do “projeto”.
Como abordar sem ser invasiva: mensagem curta e humana
A primeira mensagem precisa ser curta, respeitosa e direta. Evite textões e evite a ansiedade do “oi tudo bem, posso te mandar uma proposta?”. Mande a proposta em miniatura, já com uma ideia clara do que você oferece, e finalize perguntando para qual setor encaminhar.
Algo como: “Olá! Sou autora e realizo encontros de leitura e oficinas de poesia. Tenho uma proposta curta para estudantes do [ano/curso], com duração de [x], que pode ser presencial ou online. Posso enviar um resumo com opções e valores/contrapartidas? Com quem posso falar sobre projetos de leitura e biblioteca?”
Isso abre conversa sem pressão.
Parceria não precisa ser gratuita para ser legítima
Esse é um ponto delicado: muitas instituições — especialmente públicas — têm orçamento restrito, mas isso não significa que o trabalho cultural deva ser sempre gratuito. O ideal é trabalhar com possibilidades: ações via extensão universitária, editais, semanas acadêmicas, parcerias com associações de pais, projetos municipais, feiras literárias locais, centros culturais, etc.
E quando não houver verba, existem formatos possíveis que não precarizam tanto: ações online curtas, contrapartidas de compra para biblioteca, mediação feita pela escola com sua participação pontual, ou ações coletivas com mais de uma autora (dividindo cachê). O importante é não transformar a “falta de verba” em regra permanente — porque isso mata o campo cultural.
Como a poesia “cola” nesses espaços? Pela experiência, não pela explicação
Em escola e universidade, poesia funciona quando vira experiência: leitura em voz alta, escrita coletiva, conversa sobre linguagem, identificação com temas vivos (território, corpo, afeto, injustiça, memória, identidade), e não apenas análise fria do “significado do poema”. Parcerias bem-sucedidas geralmente são aquelas que deixam o estudante sentir que poesia não é um enigma para decifrar — é uma forma de existir.
É aí que a poesia se torna divulgável: quando ela deixa de ser “matéria” e vira encontro.
Depois do evento: como manter a parceria viva
Muita gente faz uma ação linda e depois some. O pós também constrói circulação. Envie um agradecimento, peça uma foto (se autorizado), ofereça um pequeno texto para a escola publicar, pergunte se podem registrar depoimentos de estudantes, sugira continuidade (um clube de leitura, uma antologia escolar, um sarau semestral). A instituição gosta de continuidade porque isso vira histórico, projeto, memória.
E, de forma sutil, isso também sustenta vendas futuras e convites para outras atividades.
O que a Toma Aí Um Poema acredita
Na Toma Aí Um Poema, a gente acredita que poesia não se “vende” como qualquer produto: ela se cultiva. E escolas e universidades são solo fértil. Parcerias educacionais são uma forma concreta de democratizar leitura, ampliar repertórios e criar oportunidades para vozes diversas — principalmente quando a literatura independente entra nesses espaços com respeito, preparo e afeto.
Se você é autora, editora ou mediadora: comece com uma proposta pequena, bem feita e replicável. O primeiro “sim” costuma abrir muitos outros.
E agora queremos te ouvir: você já tentou parceria com escola ou universidade? O que foi mais difícil — encontrar o contato certo, montar a proposta, falar de orçamento, ou fazer a poesia caber no formato? Conta nos comentários. 💙