
Rosas de Chumbo (2025), romance híbrido de Daniela Bonafé, é uma obra literária que floresce na aridez dos “anos de chumbo” da ditadura brasileira. Desde o título paradoxal – unindo a delicadeza das rosas ao peso letal do chumbo – o livro anuncia seu propósito: resgatar do esquecimento vidas soterradas pela violência estatal e transformá-las em presença poética. Bonafé presta uma homenagem engajada a cinquenta mulheres reais silenciadas pelo regime, recriando em ficção seus sonhos, lutas e desejos que a História oficial relegou à margem. O resultado não é um simples memorial ou arquivo de atrocidades, mas um tributo vívido à resistência feminina, em que a literatura se faz gesto de memória ativa para que as feridas do passado não se repitam.
Literatura como gesto de memória (e não como arquivo)
Em Rosas de Chumbo, a literatura ocupa o espaço que a história oficial lhes negou, recuperando simbolicamente as vozes das mulheres apagadas pela ditadura militar. Muitas dessas mulheres figuravam apenas como nomes frios em registros ou relatórios – dados históricos estáticos, sem rosto ou história pessoal. Bonafé rompe essa frieza documental ao ficcionalizar vidas: ela preenche os vazios dos arquivos com humanidades palpáveis – medos, amores, anseios –, oferecendo “a poesia diante do horror, a beleza diante de uma dor inexorável”. A memória aqui não é um depósito morto de fatos, mas sim matéria viva em constante (re)construção. Cada página do romance parece recriar uma presença, convocando essas ausentes ao palco do presente em linguagem literária. Em vez de um tomo histórico distanciado, o livro se assemelha a um diálogo íntimo com fantasmas que ainda têm muito a dizer. Bonafé trata a memória como uma chama a ser mantida acesa – um ato de resistência contra a amnésia coletiva. Ao reimaginar poeticamente essas trajetórias interrompidas, Rosas de Chumbo devolve humanidade às figuras que o autoritarismo tentou apagar, transformando lembrança em experiência sensível e combativa. A leitura se torna, assim, um exercício de empatia histórica: o passado deixa de ser uma cifra e ganha vozes, corpos e corações pulsantes, numa denúncia lírica das violências de outrora. Essa opção estética reforça a ideia de que lembrar não basta – é preciso nunca esquecer, como enfatiza a própria autora; a memória literária assume uma função ética e política, bradando “ditadura nunca mais”.
Polifonia e formas híbridas
Para escapar da rigidez do testemunho unívoco e das fórmulas estanques de gênero, Bonafé constrói sua narrativa em polifonia e múltiplas formas de expressão. Rosas de Chumbo é deliberadamente híbrido: os 13 capítulos apresentam textos ora em prosa, ora em poesia; por vezes surgem na forma de cartas íntimas, diários pessoais, versos de cordel ou até trechos que lembram roteiros teatrais. Essa diversidade formal não é mero experimento estético, mas parte essencial do significado da obra. Cada mulher retratada ganha uma voz literária singular, adequada à sua história – como se o estilo de cada capítulo fosse moldado pela personalidade ou pela experiência daquela personagem. Essa pluralidade estilística permite que cada personagem tenha identidade própria, em contraste com a desumanização promovida pela violência de Estado. Se a ditadura tentou reduzir suas vítimas ao silêncio indistinto, o romance responde com um coro de vozes distintas: mulheres que falam em ritmos e timbres variados, reivindicando sua individualidade.
Essa polifonia ecoa também a fragmentação da memória e o esfacelamento das identidades violadas. Diante de traumas tão profundos, não há um único modo de narrar – a lembrança se fragmenta em múltiplos registros. Bonafé abraça essa fragmentação ao montar seu livro como um mosaico de gêneros: a poesia capta o indizível da dor, a carta expõe a saudade e a intimidade interrompida, a prosa contextualiza e imagina, o cordel conecta à cultura popular de resistência. Juntos, esses fragmentos compõem um retrato multifacetado da época e das pessoas, recusando a linearidade simples do relato histórico oficial. A forma híbrida do romance, portanto, espelha a natureza complexa da memória: feita de retalhos, de vozes entrecortadas, de estilos diversos que se entrelaçam para revelar uma verdade maior. O leitor é instigado a montar as peças desse quebra-cabeça polifônico, experimentando a memória não como um bloco monolítico, mas como um caleidoscópio de perspectivas. Assim, a estética heterogênea de Rosas de Chumbo amplifica seu teor político – ao dar espaço a muitas vozes e formas, o livro declara que nenhuma história de violência estatal possui um único lado ou uma só versão, e que a identidade das vítimas não pode ser contida em uma única moldura narrativa.
O tempo como montagem
Outro gesto marcante de Daniela Bonafé é a construção do tempo narrativo como uma montagem cinematográfica, que contrapõe a macro-história oficial às micro-histórias vividas. Em vez de apresentar uma cronologia linear convencional, o romance alterna fatos históricos amplamente conhecidos com cenas íntimas ficcionalizadas, justapondo os dois planos temporais para evidenciar tensões e silêncios. Cada capítulo se situa em um ano do período ditatorial e se inicia contextualizado por algum marco ou referência histórica – notícias de jornal, eventos culturais, discursos políticos que marcam aquela época. Por meio de breves vinhetas factuais, o leitor é lembrado do tempo oficial: o que se propagava nas manchetes, o clima público daqueles dias. Em seguida, porém, adentramos a realidade nua e crua de mulheres anônimas que tiveram suas vidas interrompidas pela violência de Estado. Essa sequência funciona como um efeito de montagem: tal como um filme alterna cenas documentais e dramáticas, Rosas de Chumbo cola lado a lado o relato frio da História e o grito sufocado da experiência individual.
O impacto dessa justaposição é poderoso. Ao tensionar a linha do tempo oficial, Bonafé expõe o abismo entre História e vida. Os grandes acontecimentos – celebrados ou noticiados como progresso, segurança, normalidade – correm em paralelo a tragédias invisíveis aos registros públicos. Por exemplo, enquanto o país vencia uma Copa do Mundo ou anunciava o “milagre econômico”, em algum porão escuro uma dessas mulheres vivia seu inferno privado, desaparecia sob tortura ou perdia um amor para a repressão. O romance nos força a encarar essas duas camadas temporalmente simultâneas: de um lado, a versão triunfalista ou burocrática do regime; de outro, a subjetividade dilacerada das vítimas desconhecidas. O efeito de montagem temporal fragmenta a narrativa tradicional para revelar verdades que escapam à historiografia oficial – como se a autora rebobinasse a fita do passado e inserisse cenas ocultas entre os fotogramas conhecidos. A cada novo capítulo, o leitor percebe como o que está nos livros de História é incompleto: há sempre um subterrâneo de vidas e vozes clamando para serem ouvidas. Bonafé revela esse “universo paralelo” escondido nas entrelinhas do tempo, desconstruindo a ideia de que os anos da ditadura podem ser compreendidos apenas pelas datas e fatos oficiais. O tempo, em Rosas de Chumbo, não é uma linha reta impessoal – é um tecido rasgado, repleto de cortes abruptos onde cabem tanto um verso de música da época quanto o último pensamento de alguém prestes a desaparecer.
Ao montar o passado dessa forma, Rosas de Chumbo convida o público a uma reflexão profunda sobre memória e história. A literatura se transforma em uma espécie de máquina do tempo sensorial: faz o leitor vivenciar a distância entre o discurso público e a verdade íntima, entre a crônica oficial e a memória ferida. Essa estratégia de colagem temporal não só amplifica a carga dramática de cada relato, como também serve de alerta: escancara o quanto a narrativa histórica dominante pode omitir dores individuais, e quão indispensável é recuperar essas histórias para a compreensão plena de um período.
Em suma, Daniela Bonafé tece um romance que é ao mesmo tempo obra estética e ato político. Rosas de Chumbo ergue, com linguagem literária e sensibilidade, um memorial polifônico às mulheres que a ditadura tentou silenciar. Através do gesto vivo da memória, das vozes múltiplas e da montagem do tempo, o livro devolve a essas mulheres o direito à palavra e à humanidade negadas, fazendo da literatura uma forma de justiça poética. Leitores e leitoras são chamados a se emocionar, a se indignar e, sobretudo, a não esquecer. Num país que ainda lida com as sombras do autoritarismo e onde ecos do passado insistem em reaparecer, Rosas de Chumbo se afirma como leitura necessária – um canto plural de lembrança e resistência, capaz de transformar dor em consciência. Afinal, como brada o romance em sua intenção mais profunda: ditadura nunca mais.