
Juliana Montanari, em sua estreia literária As oito mulheres, apresenta um mosaico de vozes femininas singulares. São oito protagonistas, cada qual “com sua história, seu corpo, seu jeito de resistir”. Uma delas “vive entre lembranças que se apagam; outra carrega a dor de ser chamada de louca”, e há também “quem ame demais, quem grite em silêncio, quem sonhe com a lua, quem apenas tenta sobreviver”. Essas mulheres enfrentam realidades distintas – de uma idosa lidando com a perda de memória a uma jovem rotulada como “louca” –, porém são vozes distintas que se reconhecem na mesma busca: existir por inteiro. Montanari constrói personagens femininas complexas que fogem a arquétipos fáceis: não há aqui estereótipos unidimensionais, mas retratos profundos de mulheres com subjetividade própria.
Essa profundidade emerge da postura narrativa da autora, marcada por sensibilidade e respeito. Montanari “não explica as mulheres — as escuta”, concedendo-lhes voz e autonomia. A narrativa permite “que falem, respirando por entre as linhas, sem pressa e sem pedir desculpas” – há uma clara escuta ética de suas experiências. Cada conto é escrito com um olhar atento “de quem tateia o invisível”, numa prosa “leve como quem conversa, mas profunda como o corpo em movimento”. A autora evita julgamentos ou análises didáticas; em vez disso, convida o leitor a imergir nas perspectivas íntimas dessas mulheres. O efeito é uma leitura quase sensorial, que “convida o leitor a sentir, mais do que compreender as vivências apresentadas. (Ana Lígia Vasconcellos, prefácio de As oito mulheres)
Dessa forma, As oito mulheres valoriza a singularidade de cada personagem. Montanari dá palavra “ao que é sensível, ao que é ferida e ao que é força” em cada história, numa escrita que equilibra vulnerabilidade e potência. O resultado são personagens de carne e osso, longe de rótulos simplistas. Elas amam, sofrem, sonham e lutam – sempre retratadas com humanidade e dignidade, jamais como caricaturas. Essa abordagem gera forte empatia: o leitor escuta essas vozes femininas com o mesmo respeito que a narradora lhes dedica.
Saúde Mental e Anticapacitismo com Sensibilidade
Um dos grandes méritos do livro é a abordagem sensível da saúde mental e do anticapacitismo. Montanari entrelaça às histórias temas como Alzheimer, neurodivergência, institucionalização psiquiátrica e sofrimento psíquico de forma natural e livre de estigma. Não por acaso, já se disse que As oito mulheres “é quase um manifesto” e que “é necessário falar de saúde mental para ontem”. A autora parece atender a essa urgência com naturalidade – suas narrativas abordam transtornos mentais e deficiências sem sensacionalismo, num tom cotidiano e empático. O livro nos faz ouvir histórias que “não cabem em diagnósticos, rótulos ou padrões”, rompendo com visões reducionistas.
Em cada conto, questões de saúde mental são tratadas de forma humanizada e destigmatizada. Montanari não identifica suas personagens por doenças ou condições específicas; pelo contrário, ela deliberadamente evita nomeá-las clinicamente. “Os leitores atentos perceberão que não diagnostiquei nenhuma personagem, afinal, elas estariam doentes?” escreve a própria autora. Essa escolha corajosa reflete um compromisso claro com o anticapacitismo – a rejeição de visões preconceituosas que reduzem a pessoa à sua deficiência ou transtorno. Montanari adota “esse olhar de dentro de quem vive alguma condição”, desmistificando os estereótipos e revelando “um pouco das dores sofridas por quem se sabe diferente”. Em vez de definir suas protagonistas por nomes clínicos ou termos pejorativos (os “nomes clínicos e vulgares” que elas recebem na vida real), a autora mostra tudo o que elas são capazes de sentir e realizar.
Essa postura inclusiva se evidencia em histórias como a de uma jovem neurodivergente encontrando seu lugar no trabalho ou a de uma mãe lidando com os desafios de criar uma filha autista. Montanari desmistifica a diferença: ela nos lembra que aqueles “que se sabem diferentes” têm, como todos nós, “capacidade extrema para um tanto de coisas” – o que lhes falta não é talento ou desejo, mas sim oportunidades de pertencimento que lhes são negadas pela sociedade capacitista. Há, por exemplo, o conto da avó com Alzheimer, narrado com uma ternura que nos permite enxergar por trás do véu do esquecimento: em vez de tratá-la como um fardo, a história revela suas memórias, medos e momentos de lucidez com profundo respeito. De modo semelhante, a personagem que sofre transtornos psicológicos e ouve vozes é apresentada a partir de seu mundo interno, sem julgamentos simplórios – vivenciamos sua angústia e sua coragem, não um rótulo médico.
Chama atenção também a forma como a autora flerta entre realidade e devaneio para traduzir essas vivências. Em certos momentos, a narrativa parece onírica ou metafórica, embaralhando o que é real e o que é imaginado – um reflexo do estado mental das personagens. Esse ir e vir “entre o real e o absurdo, o real e o devaneio, o real e o improvável” nos leva a encarar nossa própria percepção da normalidade. Montanari mostra que a chamada loucura tem sua lógica interna e que a realidade, em última instância, é também questão de ponto de vista. Ao envolver o leitor nessas fronteiras tênues entre sombra e luz, a autora promove empatia: compreendemos de dentro para fora o que essas mulheres sentem, em vez de olhá-las de fora com estranhamento.
Em As oito mulheres, portanto, falar de saúde mental não é lançar mão de dramatizações fáceis nem de lições de moral – é um ato de escuta e de coragem. A obra refuta o sensacionalismo: não há cenas gratuitas de sofrimento usadas apenas para chocar, mas sim uma dor tratada com honestidade e compaixão. A coragem de Montanari está em tocar em temas tão sensíveis de forma genuína, sem cair no piegas ou no estigmatizante.
Um Convite à Empatia e à Reflexão
Com sofisticação literária e acessibilidade, As oito mulheres oferece uma experiência de leitura ao mesmo tempo emocional e crítica. As histórias pulsantes de Montanari – verdadeiros “pulsos de vida” – convidam-nos a sentir junto das protagonistas suas alegrias e dores, e a refletir sobre as estruturas sociais que muitas vezes as silenciaram. Ao evitar arquétipos reducionistas e abordar a saúde mental com sensibilidade, Juliana Montanari cria um livro necessário e atual.
Ao fechar a última página, o leitor leva consigo não apenas o encanto de uma prosa fluida e poética, mas também um olhar ampliado sobre o feminino em sua vulnerabilidade e força, e sobre a urgência de uma sociedade mais acolhedora. As oito mulheres nos ensina sobre escuta e alteridade: ao dar voz a quem costuma ser calado ou incompreendido, a autora nos faz enxergar a humanidade vibrante por trás de cada rótulo ou diagnóstico. O resultado é um ensaio literário em forma de ficção, um retrato plural e tocante que permanece ecoando no coração e na mente – talvez, como sugere o livro, para que possamos enfim ouvir essas vozes e reconhecer nelas um caminho ético de empatia.